Indigenismo internacional ameaça a conclusão das linhas de transmissão Guri-Roraima
18/nov/98 (AER) - Em 29 de julho passado, cerca de 600 indígenas venezuelanos bloquearam a rodovia El Dorado-Santa Elena, que liga a Venezuela ao Brasil (BR 174), em protesto contra a construção da linha de transmissão da hidrelétrica de Guri que trará eletricidade ao Estado de Roraima. A razão alegada para o protesto foi que as linhas de transmissão passam por terras de índios Karina, Arawako, Akawalo e Pemon sem as devidas "compensações" do governo venezuelano. Por outro lado, ano passado, a Organização das Nações Unidas fez chegar ao governo venezuelano sua preocupação porque as linhas de transmissão iriam ser construídas sem a realização de competentes estudos de impactos ambientais. Estes e outros protestos similares, aliados a dificuldades de fornecimento e construção enfrentadas pela Edelca, estatal venezuelana responsável pelo empreendimento, determinaram o adiamento da inauguração da linha de Guri, originalmente prevista para o final deste ano.
Em realidade, tais protestos somam-se a inúmeras outras ações, cujas antecedentes incluem a demarcação da gigantesca reserva ianomâmi no Brasil-Venezuela e a desmobilização do Projeto Calha Norte, coordenadas pelo Establishment anglo-americano por intermédio do aparato ambientalista-indigenista internacional para manter isolado o estratégico e rico Estado de Roraima e seu vizinho venezuelano (Amazonas).
A coordenação geral desta operação está a cargo da Coalition for Amazonian Peoples and Their Environemnt, ONG espelho sediada em Washington que congrega a fina flor das ONGs ambientalistas-indigenistas que, por definição, são apátridas: World Wildlife Fund-Latin American/Caribbean Program (WWF), World Resources Institute (WRI), National Wildlife Federation (NWF), Oxfam, União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Friends of the Earth (FOE), Environmental Defense Fund (EDF), Cultural Survival e Conservation International, todas bem conhecidas dos leitores do Alerta Científico e Ambiental. Entre os satélites locais, encontramos o indefectível Instituto Socioambiental (ISA), o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e praticamente todas as ONGs supostamente indígenas, como a Comissão Pro-Yanomami (CCPY), CAPOIB, etc. (curiosamente, o Conselho Indigenista Missionário - Cimi, não integra a lista).
Segundo seus próprios anais, a Coalition for Amazonian, foi criada em 1990 em Iquitos, Peru, de uma reunião entre a COICA (Coordinación de los Indígenas de la Cuenca del Amazonas) e ONGs ambientalistas baseadas nos Estados Unidos para defender a Amazônia. Segundo a Declaração de Iquitos, que formalizou a criação da Coalition for Amazonian, a melhor forma de defender o meio ambiente amazônico é apoiar as reivindicações territoriais dos povos indígenas da região pois estes acreditam que foram aí colocados para proteger a mãe-Terra e necessitam manter estes territórios intactos para continuar a reproduzir suas culturas. Os 'vilões' deste processo são as devastadores obras de infra-estrutura, a exploração de matérias-primas e a colonização conduzida pelos governos locais. A COICA faz agradecimentos públicos à Ford Foundation, Oxfam, WWF, UICN, Inter American Foundation (IAF, órgão do governo norte-americano) e ao governo da Finlândia, entre outros, pelo apoio recebido no período 1992-1997.
Não foi por casualidade que esta reunião tenha realizado-se em Iquitos, cidade peruana da província de Loreto, que faz fronteira com o Brasil. Historicamente, Loreto tem sido palco de vários esforços separatistas. Atualmente, encontra-se sob o controle ideológico do padre espanhol Joaquín García, também conhecido como o "Samuel Ruiz" do Peru - uma alusão ao líder dos zapatistas, insurgência separatista mexicana. García dirige o Centro de Estudos Teológicos do Amazonas, maior editora da Amazônia peruana, e controla também o Museu Histórico de Iquitos e a Biblioteca Departamental. Nos últimos meses, García tem sido o porta-voz do que ele considera os "direitos" das etnias indígenas da região.
Recentemente, a Coalition for Amazonian induziu ONGs venezuelanas a apresentarem um projeto de lei elaborado por antropólogos e advogados para restruturar os municípios do estado do Amazonas (Venezuela) seguindo diretrizes étnicas em que está incluída a criação de uma cidade exclusivamente para os ianomâmis. Os autores do projeto de lei sustentam que cidades étnicas são a forma de salvar a "cultura, tradição e posse coletiva da terra de índios já protegidos por reservas da biosfera, parques nacionais e moratórias de exploração mineral até o ano 2050". Ou seja, segregação racial e separatismo explícito. Para que se tenha uma idéia do arcabouço mental deste pessoal, é suficiente mencionar a análise de Melina Selverston, diretora da Coalition for Amazonian, sobre os incêndios ocorridos em Roraima este ano, conforme declarou à agência noticiosa UPI em 29 de abril passado: "O governo deixou o incêndio se propagar por três semanas (sic). Finalmente, todos os shamãs da área juntaram-se e invocaram por chuvas e, nesta noite, choveu".
A primeira reunião internacional de tribos indígenas do Brasil, Venezuela e Guiana para "ajustar" questões sobre hidrelétricas, rodovias e mineração foi realizada em fins de agosto do ano passado em Boa Vista, Roraima. Seus patrocinadores foram exatamente o WRI e o EDF, sob a coordenação do Cimi, ISA e CCPY.
Uma síntese da linha de ataque dessa gente contra o Estado de Roraima e os outros três ex-Territórios brasileiros (Amapá, Acre e Guaporé, atual Estado de Rondônia), foi feita pelo Dr. Stephen Schwartzman, ativista sênior do EDF e membro fundador do ISA, que critica veementemente o "imenso emaranhado de transferências, subsídios e políticas federais que subvencionam e incentivam o processo da ocupação desordenada da Amazônia". Segundo ele, Roraima não existiria como Estado sem a transferência de centenas de milhões de reais do governo federal "pois não há atividade econômica que o sustente. É um Estado do tamanho de São Paulo e com menos de 250 mil habitantes, mas que tem oito deputados no Congresso Nacional que ficam chantageando o Governo federal solicitando a redução das áreas indígenas e criando municípios orçamentariamente inviáveis, cuja única base de sustentação econômica é o garimpo ilegal, a prostituição e o contrabando. Se a representação no Parlamento fosse por critérios proporcionais à população, talvez Roraima não tivesse direito sequer a um deputado. Considerando a atitude da classe política de Roraima para com as terras indígenas do Estado, o povo brasileiro está pagando pelo esbulho do seu próprio patrimônio. E, cabe ressaltar, que esta é a estrutura político-econômica da Amazônia como um todo". Tais afirmações foram publicadas no relatório A Estratégia dos Bancos Multilaterais para o Brasil: análise crítica e documentos inéditos", emitido este ano pela ONG Rede Brasil ( ver Alerta Científico e Ambiental, vol. 5 no. 23) e, ao que se saiba, Schwartzman não foi contestado judicialmente por estas acusações.



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