Hidrelétricas: à mercê de ONGs e São Pedro
28/fev/08 (AER) – Reguladores, operadores, planejadores e agentes do setor elétrico nacional encontraram-se hoje no Fórum Apine-Canal Energia, realizado no Rio de Janeiro, para discutir sobre as perspectivas para o abastecimento de energia neste ano e em 2009. [1]
A primeira constatação é que o país convive, este ano, com um ‘déficit estrutural’ de 1,3 GW médios derivado da retirada de 6 mil MW médios do sistema em conseqüência da dificuldade de importação de gás natural da Argentina e Bolívia e a insuficiente produção interna. Assim, enquanto não aumentar a oferta de gás natural nos próximos anos, o setor elétrico terá que administrar o desequilíbrio entre oferta-demanda e torcer para que o regime de chuvas se regularize.
Segundo o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, a dificuldade maior pode ser em 2009: “A situação de 2008 sempre foi confortável. Nossa preocupação era com 2009”, afirmou Chipp. A falta de gás natural provocou um uso mais intensivo dos reservatórios, que teve como conseqüência a redução do nível de armazenamento em 10% no Sudeste e de 17%, no Nordeste.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico quer estabelecer em 53% do nível de armazenamento dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste como ‘nível-meta’ válido pelo período de um ano, enquanto a famosa Curva de Aversão ao Risco (CAR) deve gerir a operação no médio e longo prazos. A proposta está em análise no Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico e deve ser votada na próxima reunião, no dia 19 de março.
A escolha do índice foi feita através de uma análise de vários cenários, que variaram de um nível de 37%, que é a Curva de Aversão ao Risco esperada para novembro, e 63%, que é o ideal para a pior escassez no período úmido. Contudo, segundo Chipp, para preservar os reservatórios das hidrelétricas dentro do ‘nível-meta’ proposto, será necessário o uso mais intenso das térmicas, ou seja, a utilização do gás natural disponível no país teria, em princípio, a geração elétrica como prioridade.
Por outro lado, de acordo com Antonio Eduardo Monteiro de Castro, gerente executivo de Gás e Energia Corporativo da Petrobras, a empresa vai investir US$ 18,2 bilhões na cadeia do gás até 2012, sendo US$ 11 bilhões na exploração e produção. O Brasil, segundo ele, já está usando toda a capacidade do gasoduto Brasil-Bolívia, importando 31,5 milhões de metros cúbicos por dia. Segundo Maurício Tolmasquim, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a unidade de regaseificação de Pecém, no Ceará, estará operacional a partir de julho próximo e a Petrobras já tem o gás natural liquefeito garantido para o atendimento ao mercado este ano. Já a unidade esperada para a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, deve ser concluída em maio de 2009.
Igualmente, segundo ainda Tolmasquim, as obras previstas na área hidrelétrica estão em andamento normal e algumas poderão ter o cronograma antecipado, como Estreito, São Salvador e Santo Antônio. “Obras atrasadas representam 4% do armazenamento na região Sudeste/Centro-Oeste. São casos raros. O mais fácil é a antecipação das obras”, disse ele.
A percepção que uma eventual crise elétrica em 2009 tenha, de repente, caído no colo da Petrobras decorre de um elemento essencial que não foi abordado no evento: a perversa diminuição da capacidade dos reservatórios das hidrelétricas, fruto da pressão ambientalista-indigenista contra os novos empreendimentos que se localizam majoritariamente na Amazônia.
Apenas para recordar, uma das grandes vantagens das hidrelétricas é permitir a ‘estocagem’ de energia sob forma líquida nos reservatórios das usinas e que pode ser gerenciada à medida das necessidades. Tal capacitação operacional aumentou sensivelmente nos últimos anos com a construção de novas linhas de transmissão elétrica que viabilizou um sistema interligado em todo o País, com exceção dos chamados ‘sistemas isolados’ na região Norte.
Se na década de 1970 as hidrelétricas então construídas tinham capacidade de estocagem de água suficiente para a geração de eletricidade mesmo com uma estiagem de 20 meses, em 2003 ela diminuiu para cerca de 5,8 meses e algumas das novas usinas só podem acumular água para meros dois meses de geração.
Uma vez mais, a hidrelétrica de Belo Monte (e outras da bacia do rio Xingu) revela-se como emblemática do prejuízo que o ambientalismo radical causou e causa aos interesses nacionais. No início da década de 1980, o inventário do Xingu apontava um aproveitamento de 20 mil MW em várias barragens em cascata que formariam reservatórios com cerca de 18 mil km2 de área. O assim chamado Complexo Hidrelétrico de Altamira reunia as hidrelétricas de Cararaô com 11,1 mil MW, Babaquara com 6,6 mil MW e outras menores (São Félix e Pombal) a montante. Cararaô foi rebatizada para Belo Monte e Babaquara para Altamira. [2]
Contudo, em outubro do ano passado, o Ministério de Minas e Energia reviu o inventário hidrelétrico do Xingu e cedeu às pressões de ONGs ambientalistas-indigenistas internacionais, decidindo que apenas Belo Monte seria aproveitada e, mesmo assim, com o seu reservatório sensivelmente diminuído, acarretando o funcionamento da usina praticamente a fio d´água: capacidade instalada de 11.181 MW e energia firme (MWmédio) de 4.796 MW.
Não é preciso ser técnico da área elétrica para entender, pelo gráfico abaixo, o que foi perdido em capacidade de ‘armazenar energia’ em reservatórios que não serão mais construídos:


Inventário hidrelétrico da bacia do rio Xingu na década de 1980 (Fonte: MME)
Se, por um lado, é compreensível que não se pode ignorar pleitos ambientais e indígenas na região, por outro, não se pode admitir que eles imponham um prejuízo estratégico dessa envergadura para toda a Nação. Cabe perguntar se ficaremos à mercê de São Pedro e das ONGs.
Notas:
[1]Agentes avaliam que é preciso administrar desequilíbrio entre oferta e demanda, Canal Energia, 29/02/2008
[2]Atualização do lnventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu, MME, 31/10/2007



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