Hidrelétricas: a intolerável síndrome do 'fio d´água'
24/set/08 (Alerta em Rede) – Nos próximos dias, a Eletrobrás deve apresentar ao Ministério de Minas e Energia um projeto de aproveitamento hidrelétrico do rio Tapajós que prevê a construção de cinco usinas com capacidade total de 10 mil MW nominais. [1]
Segundo o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, o já chamado Complexo Tapajós deverá ser leiloado em três anos, no mínimo, e prevê investimentos de R$ 31 bilhões. Se a energia do Complexo Tapajós fosse vendida hoje, o preço médio do megawatt médio giraria em torno de R$ 65.
Contudo, no inventário de Tapajós foi possível identificar um potencial de 14 mil MW, mas a Eletrobrás optou por excluir o eventual alagamento de áreas indígenas e de reservas ambientais, como o parque nacional da Amazônia. Como conseqüência, as hidrelétricas do Tapajós propostas não terão reservatórios, ou seja, serão a fio d´água. Em outras palavras, a Eletrobrás está abdicando de uma das maiores vantagens de uma hidrelétrica – a de estocar energia em forma líquida – para não assumir o ônus político de enfrentar o aparato ambientalista-indigenista.
Ainda mais absurda foi a ‘compensação’ enunciada pelo presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz, que a complementação da energia não gerada ou estocada em hidrelétricas na Amazônia poderia ser feita por usinas eólicas! Ou seja, o instável regime do ‘fio d´água’ seria complementado por outro ainda mais volátil, o do ‘fio de vento’.
Aceitar a síndrome do ‘fio d’água’ para os aproveitamentos hidrelétricos na Amazônia significa vergar-se ao ambientalismo-indigenismo neocolonial e privar a sociedade brasileira de um bem soberano.
Notas:
[1]Usinas do Tapajós já têm projeto, Valor, 24/09/2008



del.icio.us
Digg
O impacto dos alagamentos tem que ter uma vantagem: por exemplo, a baixa emissão de gases estufa. Se isso não ocorre, não faz sentido.
Sobre as fontes eólicas, são um pouco diferentes das a fio d'água, pois o fluxo de vento varia muito ao longo do dia mas, na média, é o mesmo durante todo o ano. No segundo caso há um problema de sazonalidade: numa estação há abundância, em outra não.
Apenas a título de ilustração, há estados alemães onde 40% da energia consumida vem de fontes eólicas!
Uma só turbina pode gerar 8MW e devido ao enorme momento de inércia, elas não sofrem influência de pequenas variações no fluxo. Se o vento cessa, elas podem girar por muito tempo somente com a energia armazenada. Assim, há uma chance de que o fluxo retorne antes de que ela pare de girar.
É a energia mais suja que pode existir! Nem Chernobyl fez o estrago de Itaipu!
Queimar carvão em plantas modernas não poluentes acaba sendo mais limpo, se consideramos as perspectivas de sequestro de carbono. O melhor seria destinar essas areas que seriam alagadas para formar reservatorios a planos de manejo florestal, queimando lenha em termoeletricas. junto com energia nuclear e outras fontes menores.
Precisamos repensar esse mito de que hidreletricidade é energia limpa!
PREZADO HUGO,
VOCÊ ESTÁ ESQUECENDO QUE O XINGU, TAPAJÓS E O PRÓPRIO MADEIRA, A MONTANTE DAS ATUAS USINAS EM CONSTRÇÃO, APRESENTAM DESNÍVEIS MAIS QUE CONSIDERÁVEIS PARA A FORMAÇÃO DE GRANDES RESERVATÓRIOS.
EDITOR
Vou elencar algumas perguntas e inserir alguns comentários entre elas.
A china está "100%" errada em sua politica voltada para o desenvolvimento?
Se o EUA esta na vanguarda em todos os setores e o ambientalismo também é vanguarda, porque o EUA boicotou KIOTO e COPENHAGEN?
A china cresce hoje a 9% e o brasil já experimentou esse ritmo de crescimento na década de 70,mesmo que de forma artificial, devido a um severo processo de endividamento sem lastro.
O ambientalismo deve ser tratado como ciência e não de forma dogmática como uma religião, com a passionalidade um extremista religioso.
será que a hidrelétrica de três gargantas seria aprovada,caso o projeto fosse executado no brasil hoje?
Não precisamos ir tão longe, Itaipu seria aprovada hoje?
Há alguma duvida sobre a importância de Itaipu na matriz energética atual?
E outras mega obras que só acontecem na China ou em Dubai teria como aprova-las com alguma celeridade no brasil?
Temos e que desenvolver uma formula para extrair o melhor de cada caso,para que as ações sejam pautadas pelo conhecimento técnico e cientifico, sem desfraldar nenhum tipo de bandeira,quer seja do ambientalismo ou progressista.
Aprender tanto com os nossos erros quanto com os dos outros países.
Procurei no google-earth e não encontrei nenhum local elevado que permita reservatório a não ser no Madeira dentro da bolívia. Concordo com o eugenio de que é inútil procurar reserva´torios em região de planicie alagada. Está lá nos velhos compendios do seculo 18/19. Mas somos obrigados a reconhecer que foi graças a intervenão dos ambientalista e dos indios que os reservatórios do Madeira e de Belo Monte foram reduzidos e assim permitir um custo razoável para os empreendimentos. Não constituiu nenhuma surpreza (71 R$/mwhora e 78) , nem será surpreza uma oferta para B Monte dessa órdem quando finalmente licitado. Belo Monte é muito inferior a Itaipu como usina de fio dágua e foz. Mas dá prestígio a políticos. Parece que estão com saudades dos feitos da ditadura. Só, por enquanto.
Gostaria muito que você nos contasse então uma maneira de convencer a Marina Silva, o MAB, o Greenpeace, o WWF, o FBOMS, o Conselho Indigenista Missionário, a Amazon Watch, o International Rivers Network, o Friends of the Earth, a Fundação Heinrich Böll, a blogueira Telma Monteiro, o Dr. Célio Bermann da USP, o Dr. Osvaldo Sevá da Unicamp, o Dr. Philip Fearnside do INPA,, os procuradores e promotores do Ministério Público e o cantor Sting de que é perfeitamente aceitável construir usinas hidrelétricas a fio d'água na Amazônia, de que é possível uma solução de consenso com menor custo ambiental e econômicos e de que nos novos estudos prevalece o bom senso.
Se você conseguir fazer isso, então eu posso passar a acreditar que ambientalistas não são idealistas nem contrários ao progresso, que não existe um conflito entre esses primeiros e aqueles que querem o progresso de nosso país, e que isso é na verdade um falso dilema.
Abraço.
BELO MONTE: SER OU SER?
Há mais coisas no ar do que os aviões de carreira.
Aporelli.
A licitação da Usina de Belo Monte, na foz do Rio Xingu, mostrará surpresas e controvérsias ainda maiores do que as recém-licitadas usinas do Rio Madeira. Não há como permanecer indiferente ao “Belo Monte de surpresas” que constitui o lançamento do megaevento, prometido para o final do ano. Guardadas as devidas proporções, é comparável — em termos de marketing político — ao lançamento do Pré-sal. Não é para menos: um dos raros potenciais de grande altura da região Amazônica com potência projetada do porte da Usina de Itaipu, que tambem é uma usina de foz e de fio d’água. Em comum as grandes vazões e alturas de queda Os números impressionam: grande altura e grandes vazões (90 metros de 25000 m³/segundo). Mas as semelhanças param por aí: Uma está no Sudeste e a outra na Amazônia, de pouca produção energética. A coincidência com outro evento das mudanças climáticas não poderia ser mais feliz por permitir uma oportunidade de marcar presença no cenário político internacional.
“Por traz do Belo Monte” se esconde uma fauna exótica de políticos, lobistas, marqueteiros, governadores, senadores, entre os quais nossa sumidade em matéria de energia, Lobão (o outro é claro!). O evento extrapola o genuíno interesse de ambientalistas, técnicos, mineradoras e produtores de alumínio, tendo em vista os elevados interesses políticos e econômicos que o evento propicia como véspera de ano eleitoral. De nossa parte, temos fundadas esperanças de seja a grande oportunidade de rever a estratégia seguida até aqui, nos rumos do planejamento energético e mineral. A quem interessa Belo Monte?
Como o assunto continua em pauta, embora tardiamente, estou enviando comentário sobre o trecho seu artigo reproduzido abaixo:
“Em outras palavras, a Eletrobrás está abdicando de uma das maiores vantagens de uma hidrelétrica – a de estocar energia em forma líquida – para não assumir o ônus político de enfrentar o aparato ambientalista-indigenista.”
Comentário:
Compreendo que seja uma parada enfrentar o aparato ambientalista-indigenista, mas a Eletrobrás não está abdicando de nenhuma vantagem, simplesmente não tem alternativa. Tambem não precisava dizer — num claro pedido de desculpa — que optava por usinas de fio d’água, desistindo dos reservatórios. Tecnicamente é impossível a construção de reservatórios significativos em potenciais daquela altura útil, situados em região de planície de pequena altitude. Se fossem construídos, não teriam qualquer significado em termos de constituição de estoque de energia, nem seriam capazes de regularizar a vazão das próprias usinas e de quaisquer outras a jusante no Rio Tapajós e os ínfimos estoques de energia não teriam reflexo algum sobre potenciais de outras bacias.
Hugo Siqueira av Oscar Ornelas 157 cabo verde MG
Confesso que não sei como convencer os ambientalistas citados nem os desenvolvimentistas posto que sejam posicionamentos ideológicos sobre os quais não há como discutir de forma objetiva. Ambos se dizem do lado do bem: os primeiros, defensores da natureza, os outros defensores do povo. Outro obstáculo à análise da questão é a tendência de colocá-la em termos de bem ou de mal — agir como se pessoas más e perversas estivessem destruindo a natureza por pura ruindade ou pessoas bem situadas estivessem impedindo a melhora das condições de vida dos menos afortunados. Que o problema seja de motivos, que aqueles que são nobres entre nós se levantassem em fúria para subjugar os maus, tudo ficaria bem. É sempre mais fácil vituperar contra pessoas do que se empenhar em trabalhos de árdua análise intelectual, pensar dói. Não há como argumentar objetivamente contra aqueles que crêem. É como discutir religião, uma questão de “foro íntimo”. Para aqueles que defendem posições ideológicas a fé lhes basta. No caso específico dos reservatórios da Amazônia, Independente dos desejos de cada um, o fato objetivo é que as usinas do Madeira e Belo Monte têm reservatórios ridículos pela simples e boa razão de que eles são tecnicamente impossíveis ou inúteis( tambem os do Tapajós e Xingu. O último reservatório de regularização plurianual é Serra da Mesa nas cabeceiras do Tocantins, não propriamente na região Amazonica. Foi construído por Furnas, a mesma rande empresa que que construiu os outros: Furnas e Itumbiara.É um absurdo pretender regularizar os potenciais dos rios amazônicos.
Dizem que o Brasil tem 80% de seu potencial ainda inexplorado na Região Amazônica, mas esta é uma crença que a realidade do campo gravitacional não comprova: o que relevo mostra realmente é uma região pobre de recursos energéticos e alguém precisa desfazer este mito. Brasileiros, de modo geral, gostam de acreditar que o Brasil seja “um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” e outras tantas bobagens que impedem uma visão mais objetiva dos fatos.
A discussão sobre o aproveitamento dos recursos naturais da Amazônia vem ocorrendo em um nível bastante rudimentar, dominado mais pela emoção do que pela razão. Deus sabe quanto é difícil argumentar logicamente com aqueles que professam convicções ideológicas. Ambos proclamam ser do lado do bem: ambientalistas se atribuíram o dever messiânico de salvar o mundo; desenvolvimentistas, que se intitulam a si próprios de progressistas e proclamam ser defensores dos fracos e oprimidos. Fica muito difícil discutir seriamente um assunto tão importante num ambiente político como esse.
Se tiver paciência de esperar, proximamente apresento melhor argumentação. De minha parte, tenho todo o tempo do mundo.
“Aceitar a síndrome do ‘fio d’água’ para os aproveitamentos hidrelétricos na Amazônia significa vergar-se ao ambientalismo-indigenismo neocolonial e privar a sociedade brasileira de um bem soberano”.
Comentários:
O alagamento produzido por reservatórios tem um efeito semelhante, em princípio, ao da poluição ambiental. “Com freqüência, a discussão pública do problema ambiental caracteriza-se mais pela emoção do que pela razão. Grande parte dela se desenvolve como se o ponto crucial fosse poluição e não poluição, como se fosse desejável e possível ter um mundo impoluto. Evidentemente isto é um absurdo. Ninguem que pense seriamente sobre o assunto considera a poluição zero como estado de coisas desejável e possível” ( Milton Friedman). Assim tambem não é desejável e possível um ambiente intocável. Qualquer reservatório — por diminuto que seja — produz prejuízo ambiental por alagamento. O Brasil pode ter tido a sorte de encontrar condições de relevo que permitiram a construção de reservatório do porte de Furnas, Itumbiara e Serra da Mesa na cabeceira dos rios Grande, Paranaíba e Tocantins, capazes de regularizar a vazão desses rios e garantir suprimento tranqüilo por cerca de 40 anos, o que é uma proeza. Mas essa foi uma estratégia plausível no século passado, quando condições sócio-ambientais nem eram levadas em conta e que só se tornaram possíveis graças a governos autoritários ou nacionalistas. Os habitantes de nosso município — um dos 34 afluentes de Furnas — sentiram na pele os estragos que não foram poucos. Não fora a construção dos reservatórios de regulação, certamente estaríamos patinando no atraso e não teríamos condições de propiciar aos brasileiros as inegáveis condições de vida hoje desfrutadas inclusive pelos “ribeirinhos” desses reservatórios.
Não se trata de aceitar ou não a síndrome do ‘fio d’água’ para os aproveitamentos hidrelétricos na Amazônia: esta é uma condição imposta pela realidade do relevo. Nem significa vergar-se ao ambientalismo-indigenismo neocolonial — uma sentença carregada de retórica — mas aos princípios elementares da física do século XVIII. A sociedade brasileira estaria privada dos confortos da vida moderna se tivesse mantido intacto o “território soberano”. Percorri as cabeceiras dos Rios Xingu e Tapajós (pelo Google é claro), inclusive o Teles Pires. São Luiz do Tapajós está quase ao nível do mar, encostado no Amazonas. Os potenciais da vizinhança do Teles Pires têm pouca altura e pequena altitude para se tornarem candidatos a constituir estoques de energia que permita qualquer regularização. Pretender regularizar a vazão dos rios amazônicos é um atentado contra os princípios da física. Não resta alternativa senão aceitar as contingências do relevo e subaproveitar os potenciais na forma utilizada nas usinas do Rio Madeira. Pode ser pouco, mas é o que a natureza oferece. Entretanto, a pouca energia produzida por estes potenciais pode ser conjugada com termoelétricas a gás — imprescindíveis na Amazônia, como de resto em todo o sistema atual. Em ano eleitoral, os candidatos precisam mostrar serviço (grandes obras), ainda que na forma de promessas irrealizáveis, porque não há tempo hábil. Esta é a razão do nacionalismo exacerbado No entanto hesitam — num claro pedido de desculpas — pela obrigação que têm se “sujar a matriz energética.” Ainda persistem redutos nacionalistas que contam como possíveis eleitores. Bem, chega por enquanto...
Hugo Siqueira Av Oscar Ornelas 157 Cabo Verde MG
Concordo que é difícil discutir objetivamente com pessoas que crêem apenas em suas convicções puramente políticas e ideológicas, e acabam dominados mais pela emoção do que pela razão, sem levar em consideração as evidências, os fatos e a ciência.
Porém, com tudo que tenho lido, visto e participado no meio da discussão atual sobre ambiente e desenvolvimento, vejo esse tipo de posicionamento "religioso" apenas num dos lados.
Agora sobre essa sua afirmação:
"o fato objetivo é que as usinas do Madeira e Belo Monte têm reservatórios ridículos pela simples e boa razão de que eles são tecnicamente impossíveis ou inúteis( tambem os do Tapajós e Xingu.
Dizem que o Brasil tem 80% de seu potencial ainda inexplorado na Região Amazônica, mas esta é uma crença que a realidade do campo gravitacional não comprova: o que relevo mostra realmente é uma região pobre de recursos energéticos e alguém precisa desfazer este mito."
Já que você prega uma discussão objetiva sobre a exploração da Amazônia, agradeço se puder nos enviar algum estudo ou referência que demonstre sua afirmação sobre a inviabilidade técnica de implantação de grandes reservatórios em função do relevo da região.
Uma pequena amostra para mostrar que não somos visceralmente contra ninguem, especialmente os ambientalista: eles têm razão de sobra para se indignarem. "cachorro mordido de cobra, tem medo de linguiça".
AMAZÔNIA: DECÍFRA-ME OU TE DEVORO
Ao longo do tempo a Amazônia foi alvo de intervenções desastrosas que marcaram profundamente o imaginário do povo da região. Custa a crer que depois de tantas intervenções desastrosas, a floresta tenha permanecido incólume até os dias de hoje. Esta é a principal razão dos debates acalorados entre os diversos setores envolvidos, cada um tentando prevalecer seus argumentos como principal condicionante. Uns, tem uma visão demasiado otimista acerca da capacidade dos potenciais de suprir as necessidades do sistema Sudeste e Sul, uma visão exploratória que não contempla os riscos ambientais dos grandes reservatórios. Outros têm uma visão de um meio ambiente que precisa ser protegido a qualquer custo, como um “patrimônio da humanidade”, uma espécie de “santuário ecológico”.
Como conciliar opiniões distintas sem cair na posição maniqueísta de explorar ou não explorar? Em outras palavras, é possível aproveitar de forma sustentável os potenciais da Amazônia da mesma forma que os recursos naturais? É possível encontrar um meio mais inteligente de armazenar energia sem a utilização de reservatórios? Existem formas diferentes de exploração dos diversos recursos?
Os problemas da Amazônia envolvem aspecto de natureza sócio ambiental, políticas, técnicas e econômicos. Do ponto de vista sócio ambiental as restrições são genuínas, em vista dos antecedentes de interferência indevida. Do ponto de vista técnico, o problema está mal colocado. Mesmo sem focar os argumentos apenas no aspecto ambiental, constatamos que, de todas as intervenções, até hoje não conseguimos encontrar uma sequer que não resultasse em fracasso retumbante. Com o despertar da consciência ambiental no fim do século o olhar do mundo inteiro estará voltado para a região amazônica, pondo em xeque questões de soberania. Não é só a questão de emissão de gases do efeito estufa, mas também o efeito de grandes reservatórios que constituem fator elevado de risco potencial que podem alterar o clima de forma ainda não conhecida. Questões de segurança por via militar pode agravar ainda mais o isolamento que impede o real conhecimento da região. A melhor forma de integração é o conhecimento através da ocupação, cuja soberania vira a ser contestada pelo mundo todo. A melhor defesa é a ocupação por proprietários titulados que interferem pouco com o meio ambiente.
Será possível uma visão sistêmica que contemple o conjunto de todos os interesses envolvidos? Comecemos pelos interesses energéticos.
A Amazônia não deve ser vista apenas pelo ângulo particular ou do ponto de vista estreito de cada uma de suas riquezas presumidas, mas de uma forma sistêmica do conjunto de suas riquezas e problemas inerentes a ocupação desordenada. Assim, por exemplo, em lugar de licitar o aproveitamento de recursos individuais, hidroelétricos ou minerais, a providência que contempla todos os interesses envolvidos é o aproveitamento múltiplo por bacia, ou seja, a licitação de todos os recursos que interferem com o conjunto de atividades integradas: suprimento de energia, mineração, navegação e proteção adequada ao meio ambiente através de cláusulas restritivas de área inundada (altura). A usina de Belo Monte reúne duas condições para se tornar objeto de uma licitação do tipo sugerido.
Pela planície úmida da Amazônia correm rios torrenciais de discreto número de bacias: Juruá, Tefé, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu. A concentração das chuvas, a configuração e o tamanho das bacias, mais do que a pluviosidade, é a causa principal da grande vazão dos rios, capazes de produzir grande quantidade de energia em curto período, ou seja, são rios de potência. É impossível, geograficamente, construir reservatórios de grande volume que não formem grandes espelhos d’água. Mas, mesmo subutilizados (low profile), os potenciais da Amazônia ainda conseguem produzir energia a custos compatíveis (71/78 US$/ Kwhora no Madeira), relativamente a outras fontes de energia renováveis.
O aproveitamento múltiplo é capaz de integrar toda a região amazônica de modo a romper com a condição de isolamento a que estão submetidos os atuais ocupantes e permitir a exploração não predatória de recursos naturais (energia, minerais e agricultura) sob um regime de subaproveitamento planejado (sustentável).
A usina de Belo Monte, considerada a “melhor do mundo” pela Eletrobrás, constitui um bom exemplo para explicar a diferença dos conceitos de energia e potência. De fato, tem tudo para se tornar um “bom” empreendimento: altura razoável de cerca de 90 metros, aliado a um reservatório diminuto, correspondente a ocupação da área de 400 quilômetros quadrados (10 por 40 quilômetros), inferior a área de qualquer açude nordestino ou do menor município brasileiro. Custa a crer que, em tamanho espaço da Amazônia, os índios estejam confinados à grande curva do Rio Xingu. Ora, se não conseguimos discutir racionalmente um problema tão pequeno, em termos de reservatório, qual a dimensão que o mesmo problema vai ter quando demandarem reservatórios que ocupem áreas maiores, da ordem das ocupadas por açudes nordestinos ou do total dos reservatórios do Sudeste? As usinas de montante certamente vão necessitar reservatórios de área muito superior a 400 quilômetros quadrados para regularizar a vazão do no Rio Xingu, para que deixe de ser, tipicamente, apenas uma usina de fio d’água. Isto mostra que as restrições socioambientais vão continuar e a estratégia utilizada com sucesso no Sudeste não pode ser simplesmente repetida no Norte. O planejamento dos potenciais da Amazônia necessariamente deve ter um enfoque diferente.
Mas o custo do reservatório não corresponde apenas ao valor imobiliário da terra inundada, o que seria algo suportável em uma região devastada como a do reservatório de Furnas, por exemplo. É o fato de a inundação ocorrer em área da floresta amazônica que torna o custo ambiental infinitamente maior e, portanto, o efeito altura mais evidente. Se não é aceitável um reservatório das dimensões do de Furnas em Belo Monte e foi necessário reduzir sua área para diminutos 400 quilômetros quadrados — para que o licenciamento ambiental fosse aprovado — como justificar um reservatório com área cinco vezes superior, em qualquer reservatório de cabeceira dos rios Xingu, Tocantins, Tapajós ou Madeira?
Informações como essas podem ser produzidas a partir do Banco de Dados Digital de Geomorfologia* da Amazônia Legal, lançado hoje pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O banco disponibiliza gratuitamente, via internet, informações sobre os tipos de relevo encontrados na região, compatíveis com a escala de 1:250.000 (em que 1 cm no mapa equivale a 2,5 km no terreno), com recortes regional e estaduais.
As informações sobre relevo juntam-se às de vegetação, disponibilizadas pelo IBGE em 2008, e às de solo e geologia, que devem ser adicionadas ao banco de dados em 2010. Todas elas são geradas a partir do trabalho de mapeamento sistemático do instituto, além de imagens de satélites, bibliografias atualizadas e estudos realizados por outras instituições, e deverão ser constantemente atualizadas e ampliadas.
A estruturação do banco de dados permite sua manipulação para criação de novos produtos, derivados do cruzamento de informações, que podem contribuir para estudos que visem, entre outros, ao ordenamento territorial da Amazônia Legal, bem como para subsidiar políticas públicas voltadas para a região.
O Banco de Dados Digital de Geomorfologia da Amazônia Legal está no site do IBGE, www.ibge.gov.br, na seção “Download”, área de “Geociências”. Os arquivos estão no formato shape file (em vetores), que permite ao usuário manipular os dados, mas demanda softwares específicos para ser lido.
O banco de dados mostra que as formas de relevo predominantes na Amazônia Legal são as de dissecação, termo técnico para formações visivelmente irregulares, como colinas, morros, cristas e tabuleiros*, que ocupam 73,78% dos cerca de cinco milhões de quilômetros quadrados que constituem aquela região.
Os relevos planos (aplanamentos) representam 13% do território, os de dissolução (relevos em rochas calcáreas) ocupam 0,08% do total da área, enquanto as planícies sujeitas a inundações temporárias (chamadas de acumulações) estão em 13,14% da região, sendo quase metade disso (7% do total) representado pela Planície Amazônica, formada pelos rios Solimões, Amazonas e seus afluentes.
Do território dominado por relevo irregular, 16,26% (ou 12% do total da região, o que equivale a cerca de 600 mil km2), são cobertos por formas acidentadas - mais aguçadas, pouco extensas, e muito inclinadas. Essas áreas são naturalmente mais sujeitas à erosão, e, portanto, mais vulneráveis ao desmatamento, sendo que 3,7% delas já sofreram algum tipo de intervenção humana. A destruição da cobertura vegetal sobre os solos potencializa sua erosão, o que, por sua vez, contribui para o agravamento das inundações, comuns na região Amazônica, causando enchentes que trazem prejuízos à população. Cerca de 20 milhões de pessoas vivem nos 775 municípios que formam a Amazônia Legal, segundo o Censo Demográfico de 2000.
O Banco de Dados Digital de Geomorfologia da Amazônia Legal contém informações coletadas pelo IBGE em 566 pontos de amostragem de campo, sobre 16 tipos de formas de relevo (como colinas, morros etc.), agrupadas em 162 unidades de relevo (conjuntos de formas que apresentam altitude, fisionomias e origens semelhantes, por exemplo, serras, planaltos, planícies, depressões, chapadas e tabuleiros), reunidas, por sua vez, em 4 domínios morfoestruturais (grandes conjuntos de relevo formados pelo mesmo tipo de rocha, por exemplo, bacias sedimentares).
Fonte: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1409
A ideia generalizada de que a Amazônia tem o terreno predominantemente plano foi desmentida nesta sexta-feira, com o lançamento de um banco de dados que revela que 74% da maior floresta do mundo está situado em áreas de relevo irregular, como montanhas, depressões e colinas. Apenas 7% dos cerca de 5 milhões de km² que compreendem a chamada Amazônia Legal no Brasil tem relevo totalmente plano, segundo as informações do banco de dados lançado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
E 16,3% da área amazônica em terreno irregular pode ser considerada acidentada, ou seja, como área de grande inclinação e muito vulnerável à erosão, principalmente em caso de desmatamento. "Com o estudo, percebemos que a região amazônica tem uma variedade de relevo muito superior ao que pensávamos", explicou o coordenador de Recursos Naturais e Estudos Ambientais do IBGE, Trento Natali Filho.
As informações do Banco de Dados Digital de Geomorfologia da Amazônia Legal podem ser consultadas gratuitamente no site do IBGE e incluem mapas topográficos em cada centímetro, que representa 2,5 km da Amazônia, na escala. O objetivo do projeto é oferecer material para novos estudos sobre a Amazônia, facilitar o ordenamento territorial e servir de ferramenta para o planejamento de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável da região, segundo Natali Filho.
O estudo revela que apenas 13% da área da Amazônia tem um relevo que seria recomendável para áreas de agricultura, o que não significa que sua terra seja fértil ou que o terreno seja propício para a produção mecanizada. Além disso, indica que 14% das áreas são vulneráveis a inundações temporárias, o que pode tornar qualquer projeto de ocupação inviável.
O banco de dados sobre o relevo da Amazônia se soma a outro que o IBGE tinha lançado em 2008 sobre a vegetação da região e será complementado com um sobre o solo e a geologia que será lançado em 2010. Os dados foram elaborados com base nos últimos mapas da região, imagens de satélite e estudos atualizados de diversas entidades públicas e privadas.
Fonte: http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI3868262-EI238,00.html
Concordo plenamente com este trecho:
"Ora, se não conseguimos discutir racionalmente um problema tão pequeno, em termos de reservatório, qual a dimensão que o mesmo problema vai ter quando demandarem reservatórios que ocupem áreas maiores, da ordem das ocupadas por açudes nordestinos ou do total dos reservatórios do Sudeste? As usinas de montante certamente vão necessitar reservatórios de área muito superior a 400 quilômetros quadrados para regularizar a vazão do no Rio Xingu, para que deixe de ser, tipicamente, apenas uma usina de fio d’água. Isto mostra que as restrições socioambientais vão continuar e a estratégia utilizada com sucesso no Sudeste não pode ser simplesmente repetida no Norte."
Você mesmo perece admitir aí que a restrição em implantar reservatórios na Amazônia NÃO é técnica ou de engenharia, mas na verdade vem de alguns setores da sociedade que consideram "socioambientalmente" inaceitável a implantação desses reservatórios. A aceitabilidade da área a ser alagada por um reservatório não me parece ser um critério preponderantemente técnico, que pode ser provado por a+b, mas sim um critério eivado de valores políticos, culturais, sociais e muitas vezes ideológicos, que variam de uma pessoa para outra e de uma instituição para outra.
Discordo que inundar uma área de floresta amazônica teria, a priori, um impacto ambiental maior que inundar uma área equivalente em outro bioma. Por que deveríamos dar à Amazônia um tratamento "especial"? Não vejo o que a Amazônia pode ter para ser considerada MAIS importante que a Mata Atlântica ou o Cerrado por exemplo.
Leu o texto do IBGE que enviei aí em cima? A grosso modo, o IBGE diz aí que essa história de que a Amazônia seria majoritariamente plana é balela. Parece condizente com as projeções do setor elétrico que estimam uma viabilidade de 80 GW que ainda podem ser explorados (tecnicamente falando, claro).
Boa discussão essa. Um abraço.
Já que o meu nome foi citado, eu gostaria muito de entrar nessa discussão. Gostei dos argumentos do Hugo, mas ainda tenho muitas perguntas que, se esclarecidas, podem aprofundar a discussão.
Estamos em abril e o último comentário foi postado em março. Espero que tenham ainda disposição para agregar mais um elemento ao debate.
Antes eu gostaria de fazer uma observação quanto ao aspecto ideológico/religioso/fundamentalista atribuido aos movimentos e ambientalistas. Hoje nos cercamos de pareceres e análises de professores e especialistas para subsidiar nossa lutas, portanto nem todos os nossos argumentos são desprovidos de fundamentação técnica ou científica; até juridicamente estamos bem acompanhados com advogados especializados nos variados temas socioambientais.
Um grande abraço a todos e quero que saibam que ler o que escreveram ajudou a pensar mais. No meu caso pensar não dói!
Telma
Muito grato e lisonjiado pela acolhida em ambiente tão seleto. Meu Desejo maior é o de contribuir. Não tenho preconceito contra crenças ou ideologias. Já vivì muitos acontecimentos, pertencí a inúmeras agremiações, políticas até. Acho que sou um autêntico "vira folha".Aprecio o trabalho de ambientalistas que considero uma das últimas resistência apostas aos agressores do meio ambiente. Tenho notado que as vezes a discussão acalorada acaba resvalando para o terreno perigoso das discussões estéreis que acabam levando a lugar nenhum. Por enquanto é só.
Hugo siqueira da cidade do Cabo Verde MG (pertencente ao "Cislagos" como ribeirinho do grande reservatório de Furnas). Por aquí, os estragos foram infintamente maior, numa época em que questões ambientais nem eram cogitadas.
abraço a todos
Não há nenhum demérito para Belo Monte pelo fato de funcionar em períodos curtos como usina de fio d’água, como de resto para a maioria absoluta dos potenciais dos rios amazônicos. È apenas uma constatação física, com a qual não podemos brigar. O grande equívoco está na forma de licitação pela tarifa (leilão português) ou preço médio da energia produzida, como se esta fosse representativa, à semelhança do Sudeste de pouca variabilidade sazonal. Os grandes reservatórios de acumulação (Furnas, S. Simão e Itumbiara) permitem a regularização da vazão nos potenciais de fio d’água em valores de vazão mais próximos da média dos valores históricos através de estoques de energia potencial. Para que potenciais de fio d’água possam funcionar a contento com médias representativas precisam estar associados às usinas térmicas prevalecentes (ou por construir), especialmente Belo Monte que tem custo excepcionalmente baixo devido a altura (90 metros). Por mais estranho que possa parecer, usinas térmicas são imprescindíveis na Amazônia e desta vez, os ambientalistas estão cobertos de razão quando criticam Belo Monte como fraca produtora de energia no período de seca. O fato de não poder contar com grandes reservatórios de acumulação — como estoque de energia potencial — leva à necessidade da conjugação de hidroelétricas com usinas térmicas prevalecentes na Região Amazônica. A situação é semelhante a dos países industrializados que atingiram a fase puramente térmica, onde as hidroelétricas remanescentes são utilizadas no máximo de sua capacidade instalada — às vezes supermotorizadas com adição novas unidades de baixo custo incremental — para economizar combustível de térmicas predominantes. Esta é a razão principal das termoelétricas serem imprescindíveis na Região Amazônica.
hugo de cabo verde
Já que mencionei "O grande equívoco na forma de licitação pela tarifa (leilão português) ou preço médio da energia produzida" esclareço custos:
ao custo de 19 bilhões — estimado pelo presidente da EPE — corresponde um custo unitário de 1,7 milhões o
w instalado, ou cerca de mil dólares o Kw, inferior ao da maioria absoluta das usinas construídas no Barasil e no mundo. Quanto maior a capacidade instalada (vago!) de 11.200 Mw no projeto da Oderbrecht, menor o custo unitário, ponto a favor de BM. mas espere.
uma vez construída a usina cada Mw instalado implica numa despeza mensal fixa, de, digamos, 1 % de juros sobre o custo unitário, independente do fato da usina estarou não funcionando (parada ou produzindo, juros incorrem de qualquer maneira).
-Custo mensal = 1x 1,7/100 milhões /Mw instalado ou, 17 mil reai por Mw
-Custo horário = 17000/720 ~= 24 reais por Mw instalado.
Como a usina produz "em média" apenas 1/3 da sua capacidade (em Mwmédios) o "custo médio" do Kwhora produzido será proporcionalmente 3 vezes maior:
-Custo médio da energia = 72 R$/Mwhora
Pouco inferior ao preço teto da tarifa do leilão de 83 R$/Mwhora.
***É aquí que reside todo equívoco na forma da licitação pela tarifa. Este preço é uma verdadeira "ficção" que depende do contexto (critério) para o qual a usina é projetada. Por exemplo: se foi projetada — de forma isolada —para o fim de economizar energia de térmicas pre-existentes na região (preevalecentes ou por construir)deve ser projetada para a vazão máxima correspondente á média do período histórico observado, permitida pela capacidade instalada, independente de qual seja a vazão do futuro. Ora, conquanto exista este valor médio não é representativo devido a grande sazonalidade (desvio padrão elevado). É como achar aceitável uma temperatura média do corpo cuja cabeça está no forno e os os pés na geladeira. Continua no proximo...
hugo, cidade do Cabo Verde Mg
Destacando:
Por outro lado, potenciais de planície são técnica e ambientalmente incapazes de regularizar anualmente as grandes vazões dos rios amazônicos. Este fato decorre dos volumes reduzidos que os reservatórios são capazes de armazenar perante as grandes vazões, pelo menos cinco vezes maiores do que os rios do Sudeste. Reservatórios rasos e largos não têm volume suficiente para reter o grande volume de águas no curto período em que duram as cheias, apesar de alagarem mais do que os rios do Sudeste. Quando escoados o pequeno volume retido não tem qualquer efeito regularizador sobre as vazões dos rios amazônicos.
Existem pelo menos 3 maneiras de armazenar energia elétrica por meios indiretos
1. Armazenamento da própria energia elétrica em baterias de veículos elétricos. Em breve estaremos assistindo ao desfile dos novos brinquedos chineses nas grandes nas grandes cidades brasileiras.
2. Armazenamento antecipado dos “meios” de produzir energia elétrica, sem a necessidade imediata da construção de usinas completas. Os grandes reservatórios são estoques de energia potencial anteriores à construção de usinas. Por exemplo, a construção do reservatório de furnas e Itumbiara, antes da construção das usinas de Furnas (turbina/gerador), Estreito, Jaguará, Marimbondo, Água Vermelha, etc., bem como das usinas de Itumbiara (equipamentos), São Simão, Cachoeira Dourada, etc. Imagine o “Estoque virtual de energia potencial” (desculpe a redundância) que representam cerca de 27 bilhões de m³ em relação ao nível do mar, na altitude média de 650 metros antes da construção das usinas de jusante citadas. Sozinhas, conseguem regularizar 90 % da vazão de Ilha Solteira, com o reservatório de Furnas utilizando apenas 1/3 da altura operacional (6 m), correspondente à metade do volume, entre as cotas de 768 e 750 metros (imagine o triângulo invertido junto a barragem). Esta foi a estratégia de sucesso utilizada no Sistema Sudeste, que os técnicos da Eletrobrás pretendem agora repetir, ou estender a Amazônia, notoriamente pobre de recursos naturais, especialmente dos grandes reservatórios de regulação plurianual.
3. Armazenamento “dos fins” ou fabricação antecipada de bens que a eletrólise da energia elétrica pode produzir: eletro-intensivos (lingote e tarugos de alumínio); hidrogênio para acionamento de veículos; do próprio lítio para fabricação da bateria dos veículos elétricos. Já imaginou o sucesso que fariam por aqui estas novas tecnologias? Já imaginou as grandes possibilidades da utilização da energia de usinas hidroelétricas como substituta de combustíveis fosseis utilizados pelos chineses e países industrializados? Já pensou na possibilidade da carga noturna de bateria quando, ordinariamente, as hidroelétricas estão paradas vertendo águas? Só isso por enquanto.
Hugo da cidade do cabo verde MG
Aos ambientalista digo que "não fazem a mínima idéia do que seja impacto". Por aquí perdemos de tudo, inclusive a memória. Aos desnvolvimentistas, reconhecemos a importancia para o Sistema como um todo que representam os grandes reservatório Furnas, Itumbiara. Sem eles, o Sistema Brasileiro Interligado não existiria. Só queremos saber quem vai nos pagar royalties para sustentar o resto do Brasil?
hugo de cabo verde
Há uma aceitação tácita demasiado simplista de que usinas hidroelétricas são mais baratas e limpas do que usinas térmicas pelo fato de não gastarem combustível. Pode ter sido verdade nas fases iniciais do sistema quando podiam ser encontrados potenciais incrivelmente mais baratos do que termoelétricas inclusive no aspecto custo de capital (Henry Bordem, ao preço de 117 dólares por kW da época). Usinas hidroelétricas são mais baratas quando avaliadas no contexto simples das comparações econômicas restritas aos custos de equipamento, barragem e custos imobiliários de áreas atingidas pelo reservatório sem levarem conta os impactos sócio-ambientais durante e após a construção do empreendimento. O exemplo de Furnas é bastante esclarecedor: Quando foi construída os impactos foram infinitamente maiores do que os que agora são causados pelas usinas do rio Madeira e Belo monte. A superfície alagada atingiu 34 municípios, dos quais o menor deles (Guapé) que ficou ilhado, tem área aproximada de 400 km² (20x20 km), inferior a área alagada por Belo Monte. Não foi levado em conta a recomposição das comunicações e os mais de 50 aterros entre municípios por rodovia asfaltada, como substituição da comunicação por estrada de ferro da Rede Mineira de Viação e Mogiana, cujas estações foram submersas e perdidas para sempre. A única diferença é que por aqui não existiam florestas nem índios para serem defendidos por ambientalista que tambem não existiam, dado que considerações ambientais não eram ainda consideradas. Mas existiam “sitiantes” e suas famílias estabelecidas no cultivo de terras preciosas, os quais não têm ONGS defensoras, por serem menos charmosos. Custa a crer que os 16 mil índios da Volta grande do Xingu estejam confinados a um território tão exíguo, quando por aqui é uma população provavelmente 34 vezes maior, estabelecida em cidades com seus equipamentos prontos que tiveram de ser removidos ou abandonados e sua história apagada. Quando tomamos consciência das mais de 40 compensações aos índios do Xingu e Madeira ou da briga pelos royalties do Pré-sal ficamos imaginando qual a compensação que é devida aos 34 municípios da região atingidos pelo reservatório de Furnas.
No contexto das grandes transformações do mundo moderno, termoelétricas têm custo de capital muito menor e dispensam “os corredores exclusivos” de transmissão, Verdadeira “artérias expostas” no coração da Amazônia, tambem causa de preocupações ambientais. Constituem fontes realmente seguras de garantir o suprimento, independente de condições climáticas, uma vez que seu combustível já é um “estoque de energia potencial” não dependente do clima imprevisível. Apenas emitem gases de efeito estufa em quantidade menor do que florestas alagadas.
Se você acha que termelétricas são necessárias na Amazônia, tudo bem, não contesto isso. Pelo contrário, concordo plenamente com as vantagens da energia térmica que você cita. Quem contesta essa sua posição, novamente, são os ambientalistas. Um exemplo notório é o da Vale, que iniciou a implantação de uma usina a carvão de 600 MW no pólo industrial de Barcarena, no Pará, e recentemente desistiu do projeto. Certamente as dificuldades causadas pela oposição de ONGs e do Ministério Público foi fator crucial para a decisão da empresa.
Você diz que reservatórios rasos e largos não são capazes de regularizar vazão dos rios amazônicos. Mas se você der uma olhada no último Plano Decenal disponível no site da EPE - www.epe.gov.br - verá que há previsão de usinas na Amazônia (rios Teles Pires, Tapajós, Tocantins, etc) com reservatórios que ajudarão a aumentar a capacidade de armazenamento do sistema interligado. O que a EPE diz é exatamente o contrário do que você diz. Como você acha que eles chegaram a essa conclusão? Com cálculos errados? Chutando?
Repare também que a própria usina de Belo Monte possuia um reservatório no antigo projeto da Eletronorte, da década de 1980, com uma área alagada maior que o projeto atual. Como você explica isso? Será que o quadro de funcionários da Eletronorte não tinha engenheiros que sabiam calcular a capacidade de armazenamento de um reservatório?
Você pode até achar que a tarifa para viabilizar Belo Monte deveria ser maior que 79 reais/MWh. Mas o que importa é que um consórcio de empresas achou que essa tarifa é viável e deu o lance. Inclusive já estão até fazendo melhorias no projeto para diminuir mais o custo e torná-lo mais eficiente e econômico. Por outro lado, se a empresa não conseguir, quem vai ter prejuízo é ela e o consumidor vai continuar pagando os mesmos 79 reais pela energia que vai chegar na tomada da sua casa.
Sobre as hidrelétricas, você disse que: "Apenas emitem gases de efeito estufa em quantidade menor do que florestas alagadas."
Os estudos feitos pela Eletrobrás/UFRJ e por Furnas/INPE concluem exatamente o contrário: de forma geral, as emissões de carbono das hidrelétricas são desprezíveis quando comparadas com as emissões das termelétricas. Mas esse assunto só tem relevância se você acredita no IPCC...
Um abraço. Fábio
O bem da sociedade, ou o bem público, são as reservas florestais, a biodiversidade, a àgua em quantidade e qualidade, etc.
Infelizmente você é uma das pessoas que só são beneficiadas com a geração de mais energia, no entanto dezenas de centenas de pessoas, com os mesmos direitos que vc, são realocadas para construção de reservatórios. E o pior, é que, no final, a luz da casa delas continua sendo a base de querosene.
"Apenas emitem gases de efeito estufa em quantidade menor do que florestas alagadas".
Corrija por favor:
"Emitem mais, porem os efeitos ambientais de reservatórios em região de floresta alagada são maiores". Ambas produzem efeitos globais: Termoelétricas emitem CO² que aquece o planeta.
Erupções vulcânicas (Pinatubo) emitem SO² que resfria o planeta.
Florestas alagadas emitem CH4 (metano), mudam o clima, desloca populações, extingue espécies, etc
São fenômenos concorrentes, cada um com seus efeitos.
O bem soberano da sociedade brasileira do qual o texto fala é o potencial hidráulico dos rios, conforme estabelecido pela Constituição de 1988, e que deve ser aproveitado ao máximo da sua capacidade, conforme determinado por lei.
A CF/1988 diz:
Art. 20. São bens da União:
...
VIII - os potenciais de energia hidráulica;
Art. 176. As jazidas, em lavra ou não, e demais recursos minerais e os potenciais de energia hidráulica constituem propriedade distinta da do solo, para efeito de exploração ou aproveitamento, e pertencem à União, garantida ao concessionário a propriedade do produto da lavra.
§ 1º ... o aproveitamento dos potenciais a que se refere o "caput" deste artigo somente poderão ser efetuados mediante autorização ou concessão da União, no interesse nacional, por brasileiros ou empresa constituída sob as leis brasileiras ...
Já a Lei 9074/1995 diz:
Art. 5º, § 2o Nenhum aproveitamento hidrelétrico poderá ser licitado sem a definição do "aproveitamento ótimo" pelo poder concedente ...
Art. 5º, § 3o Considera-se "aproveitamento ótimo", todo potencial definido em sua concepção global pelo melhor eixo do barramento, arranjo físico geral, níveis d’água operativos, reservatório e potência, integrante da alternativa escolhida para divisão de quedas de uma bacia hidrográfica.
"verá que há previsão de usinas na Amazônia (rios Teles Pires, Tapajós, Tocantins, etc) com reservatórios que ajudarão a aumentar a capacidade de armazenamento do sistema interligado".
Resposta:
Eu ví o reservatório de Furnas encher pela 1ª vez: levou quase um ano.
Se você construir um reservatório do porte do de Furnas em São Luiz do Tapajós os danos seriam infinitamente maiores e ele encheria logo nas 1ªs chuvas (cerca de 10 dias) e em seguida começaria a verter. Logo, a construção de qualquer reservatório em São Luiz não faria nenhum sentido: serviria apenas para aumentar o custo da barragem. São Luiz do Tapajós está praticamente ao nivel do mar na altitude aproximada de 50 metros que é insuficiente para constituir estoque relevante de energia potencial.
Visitei o Rio Tapajós desde as cabeceiras (pelo google é claro) e passeando o mouse no entorno de Teles Pires constatei uma variação da altitude inferior a 40 metros. Faça o mesmo e ficará surpreso.
A UHE São Luiz do Tapajós está prevista para ser a fio d'agua. O reservatório da UHE Sinop é que fará a regularização.
Copio abaixo o trecho do PDE 2019 que fala sobre a capacidade de armazenamento das UHEs planejadas para a Amazônia.
O relatório completo está em http://www.epe.gov.br/PDEE/PDE2019_03Maio2010_ConsultaPublica.pdf (arquivo PDF com 9 MB).
Fábio
*****
Analisando o ano de 2019, percebe-se que, em termos percentuais, a elevação da capacidade de
armazenamento (11%) é bem inferior ao aumento da capacidade instalada (61%) das novas usinas.
Uma parte da oferta hidrelétrica constante desta configuração agrega energia armazenável por
adicionar produtibilidade em cascatas que já possuem reservatórios de regularização. Entretanto, a
maioria das usinas viáveis neste horizonte está localizada em bacias ainda inexploradas, para as quais
não há previsão de instalação de usinas com reservatórios de regularização das vazões afluentes.
Grande parte das usinas viabilizadas recentemente deve operar a “fio d’ água”, ou seja, toda vazão
afluente deve ser turbinada ou vertida, não havendo condições de armazená-la. Esta configuração do
sistema gera consequências diversas, dentre as quais: a impossibilidade de controle de cheias; maior
exigência das atuais usinas do sistema com capacidade de regularização, gerando grandes alterações
de nível dos reservatórios ao longo de curtos ciclos hidrológicos (o que muitas vezes não é possível
em função de restrições operativas hidráulicas); e maior despacho térmico para atender às exigências
sazonais da carga, que não poderão ser atendidas pelo armazenamento hidráulico.
A relação entre a energia armazenável máxima e a carga de energia é representada no Gráfico 11,
onde se destacam o subsistema Sul, por apresentar um comportamento estável ao longo do horizonte
deste plano, e os subsistemas Sudeste/Centro-Oeste e Nordeste, pela trajetória decrescente dessa
relação, com redução de aproximadamente duas unidades de energia armazenável para cada unidade
de carga.
Na região Norte as usinas de Estreito, Marabá e Serra Quebrada, apesar de serem a fio d’água,
contribuem para o aumento da energia armazenável máxima do sistema, por possuírem elevada
produtibilidade e localizarem-se a jusante da usina Serra da Mesa, que possui um reservatório com
grande capacidade de regularização, eletricamente conectado ao subsistema Sudeste/Centro-Oeste,
como pode ser observado no Gráfico 15.
Analisando-se o Gráfico 16, pode-se verificar a evolução do armazenamento do sistema Teles
Pires/Tapajós. Observa-se que a contribuição mais significativa para a sua regularização é da UHE
Sinop, prevista para entrar em operação em 2016. A UHE São Luiz do Tapajós, pela localização a
jusante na cascata, apresenta um ganho de energia armazenável decorrente, principalmente, da
regularização proporcionada pela UHE Sinop. As demais usinas com reservatório de regularização
deste sistema – Jardim do Ouro, Jamanxim, Cachoeira dos Patos e Cachoeira do Caí – previstas para
entrar em operação em 2019, proporcionam um aumento da energia armazenável pouco superior a 1
GWmed.
As usinas dos subsistemas Acre/Rondônia e Belo Monte, apesar de contribuírem com 9% da
capacidade instalada prevista para o horizonte, não contribuem para o aumento (ou manutenção) da
capacidade de regularização do sistema, por serem a fio d’água.
A presente análise mostra a necessidade de valorizar e se buscar a viabilização de usinas com
capacidade de regularização, de forma a tornar mais flexível a operação dos reservatórios atualmente
instalados no sistema e minimizar o despacho das termelétricas, tanto com vistas à redução do custo
total de operação, como para a diminuição das emissões de gases de efeito estufa.
É importante ressaltar que, embora os deplecionamentos dos reservatórios de regularização sofram
restrições de diversas naturezas, sua relevância não é exclusiva do setor elétrico, ou seja, a utilização
de reservatórios de regularização é de suma importância também para outras áreas de utilização dos
recursos hídricos, tais como o abastecimento de água, a navegação e, principalmente, o controle de
cheias para proteger as várzeas e cidades a jusante dos reservatórios.
no Tapajós, restrita SINOP, cujo volume não tenho a disposição. Entretanto está projetada para 2001.Um fato, entretanto chama atenção: Embora os reservatórios do Sudeste e Nordeste estejam em níveis satisfatórios (70%) o SNS está agilizando térmicas, que ainda não estão prontas,para economizar água, com receio de esvaziamento na seca que se aproxima e não ocorrer o risco do ano passado.O plano decenal prevê crescimento do PIB em 5,1%, mas se levar em conta o ano passado com crescimento zero a média fica desuzida a 2,5%.Acho que não é um plano pra valer, dada a proximidade de substituição de presidente. A montagem do grande evento apresenta números muito grandiosos pra ser real:—um calhamaço de 800 páginas que ,obviamente ninguem vai ler; investimentos da ordem de 1 trilhão, concentrado no Pré-sal.Mega-evento projetado por marqueteiros em locais especiais de grande apacidade. Se for abrigar todos um estádio seria insuficiente. guardadas as proporções, só perde pras grandes concentrações religiosas e de celebridades. Por enquanto, um abraço e grato pela sua atenção.
Manchete da folha de hoje: 'Petrobras provoca desconfiança externa". Lançamento de ações fica para setembro, dadas as retaliações inevitáveis devido ao insucesso da BP e ao excesso de protecionismo à Petrobrás. O Brasil está abindo mão do fornecimento nacional em sondas, mais baratas dos asiáticos.
O fato de estarmos em plena campanha eleitoral prejudica decisões do próximo governo, seja ele qual for.
Voltando a SINOP: se tivesse o volume do reservatório,facilmente poderia ser calculado o estoque de energia potencia. Mas continuo em dúvida. SINOP (prevista para 2019)é muito pequena pra ter reservatório significante, capaz de aumentar estoque: está muito longe de São Luiz e como o próprio governo já sinalizou — pelo menos politicamente — que não pretende construir mais usinas no Xingu. O plano decenal é um conjunto de intenções que pode mudar facilmente no próximo governo . Só isso por enquanto.
CONDIÇOES DE MERCADO PARA O GAS
Alem dos riscos inerentes a exploração em mar profundo o aproveitamento das reservas do pré-sal impõe o novo desafio de desenvolver tecnologia e mercado para o grande volume de gás decorrente da exploração que não pode simplesmente ser lançado diretamente na atmosfera ou ser queimado como se faz habitualmente enquanto o mercado não se estabelece.
O petróleo — Como objetivo principal — poderá ser diretamente aproveitado em navios petroleiros e enviado como uma comodity de acesso garantido ao mercado. Mas, A conseqüência natural da exploração das reservas do Pré-sal na próxima década será uma super oferta de gás para o qual terá que ser feito um esforço para desenvolver mercado para esse produto.
Enquanto o petróleo é uma comodity de fácil acesso ao mercado internacional, o gás encontra melhores condições no mercado doméstico, industrial e de energia. A lógica é semelhante à de uma indústria de rede como a da energia elétrica. O transporte por gasodutos até as indústrias e residências é mais barato e menos sujeito a riscos do que o transporte de energia elétrica que, por sua vez tem distribuição mais facilitada por redes de distribuição. Ambos são regidos por monopólios dos estados cobradores de ICM, constitucionalmente estabelecidos e que são operadas por empresa pública, sob supervisão de uma agência reguladora estadual.
Pelo lado do consumo a maior parte do mercado industrial já foi convertida para gás e o transporte e distribuição já contam com uma super oferta de gasodutos constituindo uma malha do Sudeste/Sul e do Nordeste que oferece excepcional oportunidade para o suprimento de combustível às termoelétricas. Estas constituem o complemento natural das hidroelétricas do Sudeste bem como das termoelétricas de 1/2 período da Amazônia. As possibilidades são várias:
1. Termoelétricas combinadas para diminuir consumo de carvão em antigas usinas (Candiota, Piratininga) e nas novas de cogeração das usinas de cana de açúcar e álcool.
2. Substituição de chuveiros elétricos em futuras residências.
3. Termoelétricas da Amazônia e do Sudeste.
Termoelétricas a gás terão suprimento garantido pelo excedente da exploração do Pré-sal e Urucu e pela super oferta da malha de gasodutos interligados.
Termoelétricas a gás constituem a melhor opção para o momento de crise que o mundo atravessa. São mais baratas não só pelo menor custo de capital relativamente às atuais hidroelétricas como pelo custo do combustível em super oferta. Do ponto de vista ambiental são menos danosas porque vão consumir o combustível que seria queimado de qualquer maneira nas plataformas de exploração.
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