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Sobre geladeiras e o “paradoxo de Jevons”

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13/mar/09 (Alerta em Rede) – Após 130 anos, são promissores os indicativos que as geladeiras (e outros aparelhos de refrigeração) poderão, finalmente, substituir o princípio de compressão de gases estabelecido por Carl von Linde, em 1875.

Graças a um trabalho feito nos EUA por pesquisadores chineses, a chamada refrigeração magnética – que utiliza materiais que se aquecem quando expostos a um campo magnético – pode em breve ser utilizada em larga escala, representando um grande salto tecnológico com evidentes ganhos de eficiência energética (menor consumo de eletricidade por unidade). Esse efeito pode ser usado em um ciclo de refrigeração clássico e os cientistas já conseguiram alcançar temperaturas próximas do zero absoluto (-273°C) utilizando esse princípio científico e tecnológico. [1]

A refrigeração magnética já é conhecida há algum tempo, mas os materiais magnetocalóricos até então conhecidos que funcionam à temperatura ambiente utilizam uma liga de gadolínio, um metal raro e incrivelmente caro, e o arsênico, uma toxina letal. Agora, os pesquisadores descobriram uma nova liga metálica composta por manganês, ferro, fósforo e germânio que não só é o primeiro magnetocalórico que funciona à temperatura ambiente como também tem propriedades tão fortes que um sistema construído com ela pode competir em eficiência com os compressores tradicionais utilizados hoje na refrigeração.

No Brasil, pesquisadores do Grupo de Preparação e Caracterização de Materiais do Departamento de Física Aplicada (DFA), da Unicamp, estão trabalhando na obtenção de materiais magnetocalóricos há mais de cinco anos.

Mesmo considerando que a “geladeira magnética” ainda demorará anos para chegar aos lares, não deixa de ser um bom exemplo para mostrar como o avanço tecnológico pode contribuir para melhorar a eficiência energética o que, por sua vez, “democratiza” a utilização de novos aparelhos domésticos ao permitir que famílias de baixa renda possam comprá-los e usá-los, pois gastam muito menos eletricidade.


O “paradoxo de Jevons”
É esse efeito “democratizante” que leva, paradoxalmente, a um aumento da demanda total de energia. O assunto foi estudado pela primeira vez pelo economista inglês William Stanley Jevons, em 1865, em seu livro The Coal Question (A questão do carvão), ao observar que as recém-introduzidas máquinas a vapor desenvolvidas por James Watt, mesmo sendo muito mais eficientes que suas antecessoras, fez aumentar a quantidade total de carvão consumido. Jevons constatou que houve uma rápida disseminação das novas máquinas em vários ramos industriais onde, anteriormente, o uso das antigas era economicamente inviável devido ao alto consumo de combustível (carvão). Em poucos anos, a quantidade de carvão “economizada” por causa da maior eficiência térmica foi suplantada pelo consumo dos novos usuários, fenômeno que Jevons denominou de “repique” (rebound), como pode ser observado no esquema abaixo: [2]



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Fonte: Wikipedia



Na década de 1980, o “Paradoxo de Jevons”, como ficou conhecido, foi confirmado pelos economistas Daniel Khazzoom e Leonard Brookes para o uso de energia por uma sociedade. Brookes, então economista-chefe da Agência de Energia Atômica do Reino Unido, demonstrou que as tentativas para reduzir o consumo de energia por meio do aumento da eficiência energética conduziria a um aumento na demanda de energia quando a economia era considerada como um todo.

Seguiram-se vários outros estudos sobre o tema, como o do Centro de Pesquisas de Energia, do Reino Unido. Em outubro de 2007, o Centro publicou o que considera a mais aprofundada análise sobre o paradoxo de Jevons. Intitulado The Rebound Effect (“O efeito de repique”, em tradução livre), revisa mais de 500 estudos anteriores e confirma a existência do paradoxo, concluindo que “as políticas sobre a contribuição potencial da eficiência energética precisam ser reavaliadas”. [3]

Sumarizando, o efeito do aumento da eficiência do ciclo energético (incluindo a produção de bens, produtos, serviços, etc.) não é a diminuição, mas sim o aumento da demanda de eletricidade motivado pelo desejado processo de inclusão social.


O “polvo canadense”
Isso não significa dizer, é claro, que a eficiência energética não deva ser perseguida, muito pelo contrário, uma vez que seu incremento permite uma elevação na qualidade de vida de uma sociedade, como se pode constatar na própria evolução da Humanidade.

Inaceitável, porém, é querer utilizar-se da “economia energética” resultante do aumento da eficiência como motivo para reduzir drasticamente a geração e o consumo de eletricidade no Brasil até 2020, por exemplo, como postulam o WWF e outras ONGs do circuito ambientalista. Em realidade, é o oposto que deve ser considerado, como mostram as conclusões de Jevons e outros. [4]

Ao utilizarem a carta ambiental para justificar a não construção de grandes hidrelétricas (ou de outras fontes que não sejam a eólica ou a solar), qualificadas como desnecessárias devido à “economia energética”, o que o WWF e caterva querem mesmo é induzir a criação de um cenário de escassez elétrica similar ao que o Brasil experimentou na primeira metade do século 20, durante a República Velha, quando o setor era dominado pelo grupo Light, o “polvo canadense”. Esse ciclo, que manietou a industrialização do País por décadas, só foi quebrado quando o Estado iniciou a construção de grandes hidrelétricas, com destaque para as usinas de Paulo Afonso e Furnas.

Ocorre que a atual geração de brasileiros teve também uma pequena amostra do que significaria um quadro prolongado de escassez elétrica quando sentiu na pele e no bolso os efeitos do desastroso “apagão” de 2001.

É a lembrança analítica desses cenários, antigos ou recentes, mas que causaram prejuízos incalculáveis para a economia e a população, que deve ser invocada para repelir, com veemência, qualquer proposta de redução drástica na geração futura de eletricidade baseada em sofismáticos ganhos de "economia energética" ou em edulcorados apelos à proteção ambiental.



Notas:
[1]Depois de 130 anos, geladeiras poderão ter avanço tecnológico, Inovação Tecnológica, 11/03/2009
[2]Jevons paradox, Wikipedia, capturado em 03/03/2009
[3]Energy Efficiency May be a Good Thing, But It Won't Cut Energy Use, Countepunch, 28/02/2008
[4]A trampa energética do WWF, Alerta Científico e Ambiental, 17/09/2006

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