Protocolo de Kyoto questionado em Buenos Aires
14/dez/04 (AER) - Além dos discursos habituais sobre a necessidade de "proteger" o planeta das temíveis emissões de gases de efeito estufa, a X Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (seu nome oficial), em Buenos Aires, foi marcada por significativos questionamentos sobre o futuro do acordo após 2012, data na qual os países desenvolvidos signatários se comprometeram a reduzir suas emissões em 5,2% sobre os níveis de 1990.
Um dos céticos foi o ministro do Meio Ambiente da Itália, Altero Matteoli, para quem será inútil prosseguir com o tratado sem a adesão dos maiores emissores mundiais. "A primeira fase do protocolo termina em 2012, e depois disso é inimaginável prosseguir sem os Estados Unidos, a China e a Índia", disse ele à imprensa. "Como esses países não querem falar em acordos compulsórios, precisamos prosseguir com acordos voluntários, pactos bilaterais e parcerias comerciais", completou.
Embora as dúvidas expressadas por Matteoli sejam compartilhadas por muitos, imediatamente, outros representantes europeus saíram em campo para afastar a impressão de que elas representavam uma mudança de rumo na posição do continente, que tem sido o principal sustentáculo político do Protocolo de Kyoto. Como disse o ministro do Meio Ambiente holandês Pieter van Geel, chefe da delegação da União Européia, "o que o ministro italiano disse está certo. Temos de envolver os países em rápido desenvolvimento e os Estados Unidos no regime pós 2012".
Há uma expectativa de que os signatários concordem com cortes de emissões maiores após 2012, num esforço para se chegar até um nível em que o suposto impacto sobre a dinâmica climática seja nulo. Pelas estimativas dos consultores científicos do Protocolo de Kyoto, para que isso ocorresse seria preciso um corte nada menos de 60%, mas as conseqüências econômicas desse número não passam despercebidas dos mais entusiasmados adeptos do acordo.
O problema, como temos enfatizado repetidamente no Alerta, é que a motivação principal das limitações ao uso de combustíveis fósseis é política e nada tem a ver com o conhecimento científico sobre a dinâmica climática. Em um artigo divulgado em 9 de dezembro pela BBC, o geólogo inglês Martin Keeley, professor do University College de Londres, se somou ao grande número de cientistas que têm questionado a maneira simplista com que as mudanças climáticas têm sido apresentadas, afirmando que o homem nada tem a ver com o aquecimento atmosférico.
"Nós que estudamos a história da Terra anterior à Humanidade consideramos o atual debate sobre aquecimento global difícil de ser contextualizado. O clima muda, e é isso mesmo. Esperar a estabilidade permanente dos padrões climáticos demonstra uma falta de compreensão básica das complexidades e instabilidades do clima... Ou as camadas de gelo avançam ou elas diminuem, e ainda bem. Depois da Era do Gelo, o clima está esquentando e o nível do mar aumentando, mas sempre dentro de padrões históricos", afirmou.
"Mas com a agora desacreditada curva de temperatura do último milênio (batizada 'bastão de hóquei' e usada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas para aumentar a pressão para a aprovação do Protocolo de Kyoto), a maioria dos observadores ainda acredita que o clima de hoje é um dos 'mais extremos já registrados'. Essa idéia é simplesmente mentirosa. Sabemos através de descobertas geológicas que variações climáticas e extremas são a regra. Esses extremos acontecem rápida e gradualmente. Eles não são, obviamente, induzidos por humanos (antropogênicos)", diz ele.
"Ao entrarmos no terceiro milênio, não deveríamos estar preocupados com a questão idiota de que podemos influenciar o clima a um custo absurdo, ainda mais por nos concentrarmos em um único elemento... O aquecimento global é um golpe, aplicado por cientistas com interesses velados, que necessitam ter aulas de geologia, lógica e filosofia da ciência. Ele dá à imprensa uma nova história de terror, é adotado por grupos de pressão e foi transformado em uma nova religião que oferece o inferno a todos os que não modificam seus hábitos", fulmina Keeley.
Enquanto isso, o Governo brasileiro, fiel à linha "politicamente correta" que tem caracterizado a maioria de suas ações na área ambiental, acaba de divulgar um relatório reconhecendo que as queimadas na Amazônia e em outras regiões transformam o País no sexto maior "poluidor atmosférico" do planeta, mesmo sem ser um grande consumidor de combustíveis fósseis. Ainda que, pelos termos do Protocolo de Kyoto, o Brasil, na condição de país em desenvolvimento, esteja livre dos controles de emissões, as conclusões do relatório desencadearão pressões externas para impedir a "destruição da Amazônia", um refrão favorito das hostes ambientalistas.
Em declarações divulgadas pela agência Reuters em 9 de dezembro, o chefe do Programa da Amazônia da seção brasileira da ONG estadunidense The Nature Conservancy, David Cleary, sugeriu esse caminho: "Isso é a coisa mais grave que já ocorreu. Não tínhamos três anos consecutivos com esse nível de desmatamento desde meados dos anos 1980, e mesmo naquela época era ligeiramente menor. E aquele era o auge da destruição da Amazônia."
Conhecendo-se a ativa interação que se verifica entre os círculos ambientalistas envolvidos na campanha de fustigamento contra o Brasil, podemos esperar novos problemas pela frente. [041214c]



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