Memória do futuro
4/fev/02 (AER) ? Por oportuno, já que estamos abordando a falaciosa teoria do "aquecimento global" (ver nota acima), reproduzimos abaixo a coluna de hoje do respeitado jornalista Fernando Pedreira, publicada nos principais jornais do país.
Memória do futuro por Fernando Pedreira
Más noticias. O mundo vai mesmo acabar. Quando? Daqui a mais duas ou três centenas de anos; talvez um pouco mais. Desta vez, quem o anuncia com tanta certeza não são os terroristas, nem os videntes, nem sequer os astrólogos, ou os mais respeitáveis astrônomos, como o laureado Steven Weinberg, Prêmio Nobel, autor, ainda agora, de "O futuro do universo". São os climatologistas.
Sabe-se que o clima no planeta Terra oscila entre longos períodos de frio glacial e curtos períodos amenos, mais quentes, espremidos entre duas glaciações, e chamados, por isso mesmo, de interglaciais. O período em que vivemos é um desses, e já dura há dez mil anos; está chegando, pois, ao fim. Outra era glacial se aproxima.
Mas, de onde vem essa oscilação climática entre o extremo frio e o calor ameno, propício ao desenvolvimento humano? Ainda no começo do século XX, um astrofísico sérvio chamado Milutin Milankovitch descobriu que a oscilação climática decorria de pequenas alterações periódicas na órbita da Terra em torno do Sol. Essas alterações produzem mudanças na incidência dos raios de sol em latitudes diversas e em várias e seguidas estações do ano. Milankovitch predisse que os mais fortes efeitos do fenômeno ocorreriam a intervalos de 19, 23, 41 e 100 milhares de anos.
Modernas pesquisas, levadas a efeito nos anos mais recentes por grupos de cientistas europeus e americanos, confirmaram as teses e os ciclos anunciados por Milankovitch, e forneceram ainda novos pormenores, julgados por eles ainda mais alarmantes. Não só o fim da fase interglacial está próximo, mas a passagem de uma a outra fase do ciclo não é lenta ou gradual, não é "incremental", como se supunha, mas é, ao contrário, violenta e brusca, marcada por vaivéns destruidores (e ainda mal explicados) da temperatura terrestre.
Em outras palavras: a passagem de um ciclo a outro é cataclísmica, marcada por inundações, secas, terríveis tempestades, tufões e desastres diversos, provocados por oscilações da temperatura média que podem alcançar 15 ou 20 graus em poucas décadas, às vezes em períodos ainda mais curtos.
Todas estas informações, e muitas outras, constam de um artigo assinado pela jornalista Elizabeth Kolbert e publicado na revista "The New Yorker", datada de 7 de janeiro. A "New Yorker" não é, sabemos todos, uma revista cientifica; mas é uma respeitável publicação que freqüentemente se destaca pela segurança e precisão com que anuncia grandes descobertas e avanços da ciência moderna. Lembro-me, até hoje, de um celebre artigo, há talvez 20 anos, que se estendeu por dois ou três números da revista, expondo e descrevendo a descoberta da então nova e revolucionária teoria das placas tectônicas que subverteu a geologia e o entendimento humano dos terremotos e dos vulcões.
Desta vez, o artigo de Elizabeth Kolbert é tranqüilo e comedido. Não recorre a nenhuma espécie de sensacionalismo ou de excesso, e em nenhum lugar utiliza frases como aquelas com que comecei meu próprio artigo. Nem seria preciso. Elizabeth, em junho do ano passado, visitou o centro de pesquisas North Grip, no coração da Groelândia, e o que viu lá e o que ouviu dos cientistas responsáveis pelo projeto está fielmente relatado no seu texto.
GRIP são as iniciais inglesas de Greenland Ice-core Project. O centro situa-se ao longo de uma linha que corre pelo meio da Groelândia, e seu objetivo é extrair da imensa massa de gelo sobre a qual está instalado exemplares específicos, grandes cilindros de gelo, cada vez a profundidades maiores, até alcançar o leito de rochas, muitos quilômetros abaixo.
O gelo das geleiras e dos campos de gelo forma-se a partir da neve que cai todos os anos e se congela. Essas camadas, digamos, anuais, são perfeitamente distinguíveis; pode-se mesmo distinguir nelas a neve de verão da neve de inverno; e no gelo que se forma encontram-se não só pequenas bolhas de ar, que revelam as qualidades da atmosfera do ano, mas até mesmo resíduos como as cinzas da erupção do Krakatoa, por exemplo, ou grãos de areia dos desertos da Mongólia, trazidos pelos ventos da era glacial. O tipo de oxigênio existente no gelo permite ainda, segundo técnica descoberta pelo químico dinamarquês Willi Daansgard, calcular precisamente a temperatura da atmosfera na época da respectiva neve.
Num campo de gelo, as camadas mais recentes e mais próximas à superfície são mais espessas e menos densas. À medida que vão se aprofundando, entretanto, a pressão sobre elas aumenta; as camadas mais fundas são cada vez mais densas e mais finas, até o ponto de os cilindros delas extraídos partirem-se ou até mesmo explodirem se não forem manipulados com os cuidados devidos.
É uma espantosa exploração do passado, não só do homem, mas da própria Terra. A cerca de 40 metros da superfície, na Groelândia, está a neve de meados do século XIX; a pouco mais de oitocentos metros está a dos tempos de Platão e Sócrates, na Grécia antiga. E, em junho último, a própria Elizabeth Kolbert presenciaria a retirada de um cilindro de gelo, que parecia semelhante a qualquer outro, mas que se havia formado a partir de neve caída sobre a Terra há 105 mil anos, antes portanto da última idade glacial.
Os cilindros de gelo extraídos pelos cientistas do GRIP são encaminhados à Universidade da Dinamarca, em Copenhague, onde são divididos em laminas que serão estudadas em todos os grandes centros de climatologia do mundo. Hoje, os trabalhos são de certo modo comandados por dois cientistas amigos, Dansgaard e Langway, um europeu e um americano, o que não impede que haja divergências entre os dois grupos (os americanos têm outro campo de pesquisas a uma certa distância dos dinamarqueses). Mas, admite Elizabeth Kolbert, a adesão ao "neocatastrofismo", que é o nome dado à nova teoria da próxima revolução climática, é hoje unânime entre os climatologistas de alguma importância em todo o mundo.
Quanto ao hoje célebre "efeito estufa" (e o conseqüente Protocolo de Kyoto), o que se acredita é que esse efeito, mesmo que se verifique com todo o possível vigor, não bastará nunca para compensar ou sequer adiar o advento da nova era glacial. O que ele pode produzir, ao contrário, é o mais rápido desencadeamento dos cataclismos que devem vir no limiar da idade nova.
Não devo, entretanto, concluir estas linhas sem dizer que a perspectiva de um próximo fim do mundo (tal como hoje o temos), embora emocionalmente apavorante e assustadora, não deixa de ter para mim um efeito moralmente reconfortante e espiritualmente saudável. Supor que a Humanidade podia ir muito mais longe do que já fomos parecia-me tolo e pretensioso, além de arrogante e sem muito sentido. Melhor assim.



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