Amazônia: Alerta na ESG
3/abr/07 (AER) ? O jornalista Lorenzo Carrasco, membro do Conselho Editorial deste Alerta e co-autor dos livros ?Máfia Verde 2: ambientalismo, novo colonialismo? e ?Máfia Verde: o ambientalismo a serviço do Governo Mundial?, foi um dos palestrantes de hoje no seminário ?Amazônia Brasileira no século XXI?, organizado e promovido pela Escola Superior de Guerra (ESG).
A palestra de Carrasco, abaixo transcrita, se intitula ?Amazônia e ambientalismo: nova forma de colonialismo?:
Rio de Janeiro, 3 de abril de 2007
A AMAZÔNIA E O AMBIENTALISMO, NOVA FORMA DE COLONIALISMO
Lorenzo Carrasco Bazúa
Para começar, quero agradecer a ESG, na pessoa do seu comandante, general Barros Moreira, pelo honroso convite para esta oportunidade de discutir um assunto que tem sido uma das motivações para a presença no Brasil deste mexicano que mal fala o português.
Há poucas semanas, estive em Buenos Aires, onde participei de uma conferência que, além de celebrar o 25o aniversário do conflito das Malvinas, tinha o objetivo de discutir as novas ameaças geopolíticas que se apresentam para as duas grandes áreas subpovoadas e detentoras de vastos recursos naturais da América do Sul, a Patagônia e a Amazônia. O organizador da conferência foi o ex-coronel Mohamed Alí Seineldín, que além de ter sido talvez o mais efetivo comandante do Exército argentino nas Malvinas, pagou com mais de 11 anos de prisão e a perda de sua patente a audácia de ter sido um dos primeiros líderes militares sul-americanos a se rebelar contra a agenda desmilitarizadora da ?Nova Ordem Mundial?, que ensaiava os seus primeiros passos na região, com o Governo Menem (1990-2000).
No conflito das Malvinas, tivemos uma primeira manifestação de uma nova estratégia, a ampliação da área de intervenções da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que agora se pretende estender a praticamente todo o planeta, com a proposta de inclusão de países como a Austrália, Japão, Índia, Israel e até mesmo a Colômbia, como vem sendo discutido em várias conferências da organização e vem sendo ?vendido? pelo ex-presidente espanhol José María Aznar, a partir da fundação que criou depois de ter sido defenestrado do governo. A despeito dos erros táticos cometidos pelos comandantes argentinos, dificilmente o Reino Unido teria saído vitorioso do confronto sem o apoio fundamental proporcionado por potências da OTAN, como a França e, principalmente, os EUA.
O desfecho da guerra, que reorientou a percepção estratégica e as principais hipóteses de conflito para as Forças Armadas, tanto na Argentina como no Brasil, somado aos efeitos da moratória decretada pelo México, também em 1982, abriram espaços para as discussões de novas propostas de desenvolvimento para toda a América Latina, inclusive o velho sonho de uma integração econômica e de infra-estruturas físicas da região. Foi precisamente essa proposta que me trouxe ao Brasil, juntamente com minha esposa Silvia Palacios, em 1985, como correspondentes da revista estadunidense Executive Intelligence Review (EIR), que tinha na integração ibero-americana uma de suas diretrizes editoriais e políticas.
Além de promover a integração ibero-americana, nos empenhávamos também em identificar as forças políticas externas e internas que se opunham a ela, em particular, e ao desenvolvimento da região como um todo. Foi assim que deparamos com o movimento ambientalista-indigenista internacional, que a partir de 1988, colocou o Brasil na alça de mira como o ?vilão ambiental número um? do planeta, enfocando, particularmente, uma suposta incapacidade do país para cuidar da Floresta Amazônica, que já era apontada em foros internacionais como ?patrimônio da Humanidade?, inclusive por chefes de Estado europeus, como François Mitterrand.
O evento que nos abriu os olhos para essa campanha articulada do exterior foi o assassinato de Chico Mendes, em dezembro de 1988, motivada por uma disputa de terras local sem qualquer relação com problemas ambientais, e a repercussão mundial que obteve na imprensa internacional, absolutamente desproporcional à figura dele. Quem era Chico Mendes? Um líder seringueiro acreano, virtualmente desconhecido no próprio Brasil, embora fosse um ativo e premiado participante do circuito de protestos ambientalistas em Washington, para o qual fora recrutado por alguns dos mentores da agenda ambientalista, que atuavam em ONGs como a National Wildlife Federation, o Environmental Defense Fund, o Natural Resources Defense Council e outras, além de seus agentes no Brasil.
A partir desses vínculos, começamos a investigar a extensão da rede de ONGs internacionais que integram o aparato ambientalista-indigenista e, por trás delas, deparamos com a cúpula do Establishment oligárquico anglo-americano e seus centros de comando no eixo Amsterdam-Londres-Nova York-Washington. Em pouco tempo, ficou claro que, por trás do discurso da proteção da natureza contra os excessos das atividades humanas e do alegado direito dos povos indígenas de se manterem isolados em seus modos de vida primitivos, estava a velha agenda colonialista e malthusiana sob uma nova roupagem, mais atrativa e adequada aos novos tempos. O objetivo era o de sempre: controle de recursos naturais e limites ao crescimento populacional e ao desenvolvimento de regiões que, embora sejam nominalmente Estados nacionais soberanos, deveriam ser mantidas como reservas de matérias-primas para as multinacionais sucessoras das Companhias das Índias anglo-holandesas e suas congêneres.
Essa orientação neocolonial do ambientalismo fica evidenciada pela presença de antigos altos funcionários coloniais anglo-holandeses, além de membros das respectivas famílias reais, nas diretorias das principais organizações não-governamentais (ONGs) integrantes do ?Estado-Maior? do movimento, o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Entre os fundadores do WWF, por exemplo, destacavam-se Suas Altezas Reais, o príncipe Philip de Edimburgo, consorte da rainha Elizabeth II, e o príncipe Bernardo da Holanda, consorte da rainha Margaret. No Brasil, o WWF teve entre os seus diretores um dos herdeiros da família Marinho, José Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo. Seu atual presidente é o ex-diretor regional do Citibank para a América Latina, Álvaro de Souza.
O WWF foi criado em 1961, com o objetivo explícito de promover a criação de grandes parques naturais nos países africanos que estavam em processo de independência das metrópoles européias, muitos dos quais são transfronteiriços e mantidos sob o controle de ONGs supervisionadas pela dupla WWF-UICN. Mais tarde, na década de 1970, quando o ambientalismo se tornou mais agressivo e explícito em suas ações, esse mesmo aparato ensejou a criação de organizações que atuassem como ?tropas de choque?, como o Greenpeace, os Amigos da Terra (Friends of the Earth) e outras.
Uma ONG de especial relevância para o Brasil é a Survival International, que foi criada em 1969, como a ?seção humana? do WWF, com o propósito específico de fomentar a criação de uma reserva indígena para os povos coletivamente denominados ianomâmis, na região fronteiriça entre o Brasil e a Venezuela. Não por acaso, a criação da entidade surgiu em uma reunião entre o príncipe Philip e o explorador Robin Hanbury-Tenison, que havia palmilhado o Brasil para identificar os principais grupos indígenas de interesse para a agenda do aparato ambientalista-indigenista.
Outro exemplo do funcionamento desse neocolonialismo foi a recente criação da reserva Raposa-Serra do Sol, em Roraima, em território contínuo, contrariando a vontade explícita da grande maioria da população do estado e, também, as recomendações de cinco comissões de alto nível que estudaram o assunto, representando os poderes Legislativo e Judiciário federais e as Forças Armadas. Como disse à imprensa o então governador de Roraima, Otomar Pinto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu publicamente ter assinado o decreto de criação da reserva para atender a pressões externas, com as quais se deparava em suas viagens ao exterior.
Para entendermos melhor o caráter neocolonial do ambientalismo, precisamos recuar ao início do século passado, ao período imediatamente posterior à Guerra dos Bôeres, quando a cúpula oligárquica britânica chegou à conclusão de que seria inviável a manutenção do Império Britânico em sua versão tradicional, com o controle das áreas coloniais assegurado pela presença física de forças militares e administradores coloniais. Das intensas discussões travadas na época entre aqueles círculos, surgiram as propostas de reforma do Império, em especial por meio de uma ?federalização? das colônias ? o que viria a ser a futura Comunidade Britânica de Nações, a Commonwealth - e o estabelecimento de uma ?relação especial? com os EUA, que já despontavam como uma grande potência global. Daí surge também o que viria a ser conhecido como o Establishment oligárquico anglo-americano, com a convergência de interesses entre as elites oligárquicas dos dois lados do Atlântico, que seria selada com a criação de organizações como o Real Instituto de Assuntos Internacionais (RIIA) londrino, também conhecido como Chatham House, e a sua contraparte nos EUA, o Conselho de Relações Exteriores (CFR) de Nova York.
Da ?federalização? das antigas colônias para as propostas de criação de estruturas de um ?governo mundial? foi um passo natural para esses candidatos a senhores do planeta.
Na base da ideologia compartilhado por esses círculos oligárquicos transatlânticos, encontrava-se o velho pessimismo malthusiano, a idéia de que o crescimento da população humana é limitado por uma base relativamente fixa de recursos naturais, e a sua variante mais recente, a eugenia, que, mais tarde, viria a ser um dos principais canais de aproximação desses grupos com os ideólogos do regime nazista de Adolf Hitler. O ambientalismo-indigenismo dos nossos dias não passa de uma reciclagem dos conceitos malthusianos e eugênicos ? não por acaso, encontramos as mesmas fundações oligárquicas promovendo umas e outras idéias, cada qual a seu tempo.
Uma organização fundamental para essa reorganização neocolonial promovida por tais grupos foi o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), fundado em 1937, em uma conferência em Oxford, Inglaterra, com o propósito explícito de minar o que alguns dos participantes chamavam a ?influência diabólica do Estado nacional soberano?, utilizando a proposta do ecumenismo religioso para promover a idéia do ?governo mundial?, já defendida abertamente por H.G. Wells em seu livro A conspiração aberta, de 1928.
O conceito de ?coletivismo religioso? promovido pelo CMI seria, décadas depois, a origem da nefasta Teologia da Libertação, cujas redes estão associadas a todas as campanhas atualmente apoiadas pelo CMI. No Brasil, os dedos do CMI e de suas redes se encontram por trás das campanhas indigenistas da ?antropologia de ação?, aí incluído o Conselho Indígena Missionário (CIMI), da Comissão Pastoral da Terra (CPT), os movimentos de ?sem-terras?, o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), a campanha de desarmamento civil e as campanhas de descrédito das Forças Armadas.
Uma das ONGs centrais para esse processo no Brasil é o Instituto Socioambiental (ISA), que teve entre os seus fundadores alguns dos mentores da rede internacional de ativistas em torno da qual gravitava Chico Mendes.
Em suma, trata-se do aparato que está inviabilizando todo e qualquer projeto de infra-estrutura física ? hidrovias, barragens, linhas de transmissão e até mesmo o asfaltamento de estradas já existentes ? fundamentais para o pleno desenvolvimento do Brasil, principalmente a região Cerrado-Amazônia.
Embora o apoio do CMI às redes da Teologia da Libertação possa induzir à idéia errônea de que se tratava de uma organização esquerdista ou socialista, a lista de participantes da conferência de Oxford proporciona um corte transversal dos interesses oligárquicos envolvidos na iniciativa. Entre eles, três nomes merecem destaque: o ex-católico e ?cristão científico? Lorde Lothian, um dos principais mentores da reorganização imperial britânica; o anglicano Lorde Halifax, que, a partir do Foreign Office, era um dos principais contatos com a cúpula nazista; e o presbiteriano John Foster Dulles, representando o Conselho Federal de Igrejas dos EUA, futuro secretário de Estado do Governo Eisenhower, posição da qual supervisionou os golpes de Estado contra o premier iraniano Mohamed Mossadegh (1953) e o presidente guatemalteco Jacobo Arbenz (1954), além de ser um dos principais mentores da Guerra Fria e dos movimentos da New Age, patrocinada por organizações como a Fundação Ford.
Nesse contexto, é oportuno mencionar as recentes advertências do cardeal de Bologna, Giacomo Biffi, ao recordar o livro do filósofo russo do final do século XIX, Vladimir Solovev, Os três diálogos e o conto do Anticristo, ressalta que, para Solovev, o Anticristo ?se apresentará como pacifista, ecologista e ecumênico?, além de convocar um concílio ecumênico e buscar ?o consenso de todas as confissões cristãs, concedendo algo a cada uma. As massas lhe seguirão, menos pequenos grupos de católicos, ortodoxos e protestantes?.
Diante desse quadro, é forçoso reconhecer que as ameaças que pairam sobre a Amazônia vão muito além dos riscos de intervenções externas convencionais, embora estes não possam ser descartados. Não obstante, o perigo real e imediato reside na ação insidiosa do aparato internacional de ONGs ambientalistas-indigenistas e missões religiosas que atuam na região sem qualquer supervisão mais efetiva por parte do Estado brasileiro. Ou seja, o que enfrentamos é uma verdadeira ofensiva de guerra irregular (ou Guerra de Quarta Geração, como a batizaram estrategistas do Hemisfério Norte), contra a qual é ineficiente uma resposta militar clássica.
Por outro lado, os poderosos interesses internacionais que se ocultam por trás da fachada ambientalista-indigenista não podem ser combatidos frontalmente, sendo necessária uma estratégia diferente para conscientizar uma massa crítica de setores diversos da sociedade sobre a natureza da ameaça e a necessidade de confrontá-la. Isso será imprescindível para que o país possa combater com eficiência as novas formas de colonialismo e empreenda a inadiável reconstituição institucional em torno de um novo projeto nacional que o projete como protagonista relevante na reconfiguração da ordem de poder mundial que se encontra em curso.



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