Mudanças climáticas e não-proliferação na agenda de Obama: Brasil deve precaver-se
4/nov/09 (Alerta em Rede) - Em seu discurso proferido no Fórum de Rodes para o Diálogo de Civilizações, em 9 de outubro último, o jornalista e ex-diplomata estadunidense Strobe Talbott delineou as principais diretrizes da política internacional do presidente Barack Obama. No evento, que contou com a presença do jornalista Lorenzo Carrasco, do conselho editorial deste Alerta, Talbott, atual presidente do Brookings Institute, um dos principais think-tanks do setor democrata do Establishment estadunidense, qualificou Obama como um dos mais ecumênicos e cosmopolitas presidentes que os EUA já tiveram e fez uma séria advertência sobre o momento atual da sua presidência. Segundo ele:
O que o presidente Obama está tentando fazer agora é traduzir isso na política e na diplomacia, mas ele está tendo muitas dificuldades. Nós estamos em um momento dramático e de suspense na política estadunidense. O presidente Obama está num momento pivotal e, eu diria, perigoso, da sua presidência. O desfecho deste momento pode determinar se o seu governo irá durar um mandato ou dois. E o próprio fato de que uma tal questão até mesmo venha à tona já é espantoso em si próprio.
Talbott se refere às virulentas disputas intestinas que se travam no Establishment pelo controle da orientação da política externa na linha da preservação da hegemonia global estadunidense, da qual a classe dirigente não parece disposta a abrir mão. Entretanto, as divergências entre as duas principais orientações que se manifestam entre os herdeiros dos “neoconservadores” que dominaram o governo de George W. Bush e setores que buscam alternativas negociadas ao declínio estratégico dos EUA (que incluem o próprio Talbott); o primeiro grupo, de mentalidade ostensivamente supremacista e belicista, pressiona por ações agressivas – até mesmo militares – contra as nações resistentes a tais propósitos, caso, por exemplo, do Irã e seu programa nuclear.
Adiante, Talbott (que ocupou o posto de subsecretário de Estado para os países do antigo bloco soviético no governo Clinton), lista as que considera as duas tarefas nas quais Obama terá que concentrar o máximo empenho: mudanças climáticas e a não-proliferação nuclear. Em tom apocalíptico, afirmou:
(...) Essas duas mega-ameaças são existenciais em sua natureza, ou seja, elas ameaçam, se não a sobrevivência da nossa espécie, a sobrevivência da empreitada humana em sua presente forma. Em outras palavras, nossa civilização. No caso das mudanças climáticas, temos que tomar medidas agora para deter o aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera, de modo que o consequente aumento na temperatura média do planeta não atinja o nível de dois graus centígrados sobre os níveis pré-industriais. (...)
Sobre a outra mega-ameaça, a proliferação nuclear. Aqui, nós temos que encontrar, já, meios de limitar a nove o número de Estados com armas nucleares no planeta [EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Israel e Coréia do Norte]... Se não pusermos um limite agora, na próxima década poderemos ver-nos ás voltas com uma Terra com 25 ou mais Estados com armas nucleares.
Entretanto, depois de admitir que os EUA são os maiores emissores de gases de efeito estufa e o mais poderoso Estado nuclear do mundo, Talbott fez uma ressalva, ressaltando que, em ambos os temas, a capacidade de Obama de tomar as medidas necessárias “requer a cooperação e a aquiescência do Congresso dos EUA”. Isto implicaria no estabelecimento de uma legislação para estabelecer limites de emissões e um mercado de carbono e, ao mesmo tempo, que o Senado ratificasse os tratados de limitação de armas estratégicas com a Rússia (START) e o tratado abrangente de banimento de testes nucleares, este, rejeitado há dez anos e que Obama pretende reapresentar em 2010. E adverte:
(...) Para assegurar a aprovação de uma lei de estabelecimento de preços de carbono e a ratificação dos dois novos tratados nucleares, o presidente vai provar ser um mestre da política como a arte do possível. E isto significa fazer acordos e não se afobando com o processo. Como resultado, nas mudanças climáticas, o mundo pode ter que esperar até depois da cúpula [sic] de Copenhague, em dezembro, para ver se os EUA estão dispostos a se comprometer. (...)
(...) Lidar com as mudanças climáticas se uma forma efetiva e oportuna irá requerer que façamos o melhor que pudermos por meio de metas internacionais e limites vinculantes, estabelecidos em fóruns multilaterais e colocados em tratados. Mas, também, significam acordos bilaterais do tipo do que os EUA está trabalhando com a China e também está buscando com a Índia, bem como iniciativas unilaterais de países individuais e, a propósito, cidades individuais.
Em suma, o recado de Talbott demonstra que velhos hábitos (especialmente os hegemônicos) resistem a ser abandonados, mesmo diante de uma crise sistêmica que a cada dia mostra novas evidências da disfuncionalidade do “modelo anglo-saxão” das classes dirigentes dos EUA, baseado no controle privado dos fluxos de moeda e crédito e na supremacia militar. Atolado em dois conflitos sem solução militar visível, no Afeganistão-Paquistão e no Iraque, e sem manifestar a disposição de confrontar o complexo hegemônico, o governo Obama insiste na surrada – e insustentável - atitude de manter “áreas de influência” e de exigir de outros países um comportamento diferente do seguido pelos EUA.
Em uma clara demonstração de tal atitude, em 3 de novembro, o Senado estadunidense transferiu para 2010 a discussão e votação de uma lei de emissões de carbono, o que afasta de vez qualquer possibilidade de que a 15ª. Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (COP-15), que se realizará em dezembro, em Copenhague, possa produzir algum acordo vinculante sobre as emissões, como era a expectativa do aparato ambientalista internacional. Com isso, dificilmente sairá da conferência algo mais do que algum tipo de acordo “tapa-buraco”, apenas para manter no ar o balão do aquecimento global antropogênico e toda a pletora de interesses políticos e econômicos estabelecidos ao seu redor.



del.icio.us
Digg
Poste seu comentário