Angra 3 e as Olimpíadas
Rio, 5/out/09 (Alerta em Rede) – Uma demonstração inequívoca do profundo engajamento do Governo na retomada do Programa Nuclear brasileiro foi dada na sexta-feira 2, no Rio, pelo ministro de Minas e Energia Edison Lobão e outras autoridades do setor durante seminário organizado pela Eletronuclear com título auto-esclarecedor : "Energia Nuclear: Desmistificação e Desenvolvimento".
Em sua apresentação, o ministro Lobão disse que, para garantir a segurança energética para todos os cidadãos brasileiros, deverá ser construída no país, entre 2030 e 2060, uma usina nuclear por ano para atender à necessidade futura de consumo. “A geração nuclear permite ao País segurança energética como em poucos lugares do mundo. Incluo-me entre seus defensores”, afirmou o ministro, destacando as grandes reservas de urânio em território nacional. [1]
Ressaltou ainda que, daqui a 50 anos, o potencial hídrico estaria aproveitado em sua totalidade, com capacidade elétrica instalada de 190 mil megawatts (MW), e que a população deve se estabilizar em torno de 250 milhões de habitantes.
Em tal cenário, Lobão enfatizou que o desafio para os governos futuros é ampliar o consumo de eletricidade per capita/ano, passando dos atuais 2.000 para 4.380 kwh, equivalente ao consumo atual de Portugal. "Grande parte dos nossos lares ou não consome ou usa menos energia elétrica do que necessitaria para uma melhor qualidade de vida", disse ele, reafirmando que para garantir melhor educação, saúde, condições de abastecimento de água e esgoto à população é necessário expandir a capacidade do parque industrial nacional e de gerar muita eletricidade.
Daí a necessidade da participação da fonte nuclear, cuja capacidade instalada de geração seria então de 24% do total nacional, correspondente ao atual parque nuclear francês (60 mil MW) que foi implantado em apenas 25 anos. Adiante, Lobão afirmou que o governo já estuda autorizar a participação de empresas privadas nos processos de construção e operação de usinas nucleares que, atualmente, é definida pela Constituição como monopólio estatal, e se disse favorável ao capital privado nos novos empreendimentos.
O evento serviu também para a assinatura solene da primeira ordem de serviço do contrato de construção de Angra 3 (1.405 MW), formalizando o reinício das obras da usina. O documento foi guardado em uma "cápsula do tempo" que perpetuará o momento para as gerações futuras. Segundo Leonam dos Santos Guimarães, assessor da presidência da Eletronuclear,
“Setenta por cento disso [R$ 8,1 bilhões a serem investidos na usina] serão injetados na economia do país. Os 30% restantes referem-se a gastos com importação de equipamentos de última geração, como o sistema de instrumentação e controle da usina – que é igual o que está sendo implantado em duas usinas que a francesa Areva constroi na França e na Finlândia”.
Ele acrescentou que a estatal já está negociando com BNDES a obtenção de financiamento para os 70% dos gastos da obra em moeda nacional, sendo que o restante deverá ser financiado com recursos próprios da Eletrobrás e captações no mercado. [2]
Já Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear, informou que a estatal planeja para os próximos três ou quatro meses uma licitação para a escolha da empresa que vai fazer a montagem da usina de Angra 3. A expectativa, segundo o presidente, é que a concorrência seja aberta somente para o mercado interno. "Temos empresas capazes de fazer este trabalho com grande eficiência. Não há porque fazer essa contratação fora do País".
Em consonância com o ministro Lobão, Pinheiro da Silva reafirmou que o Brasil necessitará, nos próximos anos, gerar eletricidade em torno de 3 a 4 mil megawatts anualmente e que, por isso, a energia nuclear será estritamente necessária, não para tomar o lugar das fontes renováveis, mas para garantir a estabilidade do sistema nacional de geração. "O combustível que melhor compensa a descontinuidade das fontes renováveis é o urânio, porque ele não tem outra utilidade melhor que a geração de energia elétrica. O gás, por exemplo, pode ser utilizado para o aquecimento industrial. E a eficiência do urânio é superior à queima de óleo, por exemplo, que tem perda de quase 70% na geração de eletricidade", disse o presidente. [3]
É para suprir tal necessidade que o programa nuclear brasileiro prevê a criação de uma central nuclear no Nordeste e outra no Sudeste, com capacidade para abrigar até seis uidades de 1MW, sendo que inicialmente apenas duas delas serão construídas. Ainda não foi definido se as usinas serão só da Eletronuclear ou se terão participação privada, mas o local do Nordeste que vai abrigar a central será escolhido pelo governo, com a Eletronuclear encarregada de indicar os sítios mais adequados, o que deve ocorrer dentro de três ou quatro meses.
Por uma feliz coincidência, durante o seminário foi anunciada a escolha do Rio como sede da Olimpíada de 2016, propiciando ao presidente da Eletronuclear a oportunidade de afirmar que os jogos serão realizados com “garantia elétrica” uma vez que Angra 3 já deverá estar plenamente operacional em maio de 2015.
Notas:
[1]Desafio do Brasil é garantir segurança energética à população, afirma ministro, Agência Brasil, 03/10/2009
[2]Angra 3 terá 70% de tecnologia nacional, Agência Brasil, 02/10/2009
[3]Eletronuclear licita montagem de Angra 3 em até 4 meses, DCI, 01/10/2009



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