Autonomia nuclear
20/out/09 (Alerta em Rede) – A retomada do programa nuclear brasileiro está, de fato, despertando grandes interesses por parte de multinacionais de olho nos cerca de US$ 24 bilhões previstos para serem investidos no setor até 2030. Sintomaticamente, autoridades do setor elétrico já receberam a visita de americanos e canadenses e esperam, para as próximas semanas, a chegada de uma delegação russa.
Há duas semanas, representantes das fabricantes de reatores Westinghouse, dos EUA, e Areva, da França, estiveram em seminário no Rio, mostrando suas novas tecnologias. Os americanos, que já iniciaram trabalho diplomático, planejam abrir escritório no País para acompanhar os projetos de novas centrais. Segundo fontes do setor, negociam ainda parceria com a construtora Norberto Odebrecht, com quem trabalharam na usina de Angra 1. [1]
A terceira grande fabricante de reatores do porte projetado para o Brasil - em torno dos 1 mil megawatts (MW) - a russa Rosatom, chega em breve para apresentar sua tecnologia às autoridades brasileiras. "Não é só o investimento para construção da usina; o escolhido ganha contrato durante toda a vida útil do reator", comenta o assessor da presidência da Eletronuclear, Leonam dos Santos Guimarães.
A ideia do governo é, a exemplo da compra dos caças da Aeronáutica, condicionar a escolha à transferência de tecnologia. Guimarães diz que um dos objetivos é atingir um índice de nacionalização de 70% - Angra 3 deve ser concluída com 54% das encomendas no País. "Queremos construir aqui grandes componentes nucleares, como o vaso do reator, geradores de vapor e pressurizadores", diz. Os turbogeradores, porém, continuarão sendo importados.
Em outra vertente, o governo acelera o aproveitamento das jazidas de urânio do País. Segundo Alfredo Tranjan Filho, presidente da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), a empresa negocia um acordo para a extração de urânio com a mineradora peruana Minsur que comprou, no ano passado, os direitos de exploração da mina do Pitinga, no município de Presidente Figueiredo (107 quilômetros de Manaus), antes pertencentes ao grupo Paranapanema. [2]
Até 2030, quando as três usinas de Angra e as quatro novas planejadas estiverem em operação, deverão usar cerca de 250 toneladas de urânio por ano. Mas, antes mesmo disso e sem contar com o potencial de Pitinga, o Brasil estará produzindo 2.800 toneladas de urânio anualmente, dos quais utilizará menos que a terça parte. No momento, o governo avalia a melhor opção entre a possibilidade de exportar esse excedente projetado de urânio e a de estocá-lo. "Nossa prioridade é assegurar o fornecimento para as nossas usinas e as que estão planejadas. A decisão sobre o que fazer com o excedente será tomada quando ele realmente existir", disse o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.
Vale lembrar que o aproveitamento das jazidas de urânio é uma das diretrizes da Estratégia de Defesa Nacional (END) e que, em 2014, o Brasil planeja dominar em escala industrial todas as etapas do ciclo do combustível nuclear. O END, por sinal, rejeita novos acordos internacionais que limitem o desenvolvimento da tecnologia de energia nuclear no país, seja o Protocolo Adicional ao TNP (Tratado de Não Proliferação) ou a ideia defendida pelos EUA de criar um banco de urânio enriquecido em grau suficiente para ser usado na geração de energia, mantendo as atividades de enriquecimento sob controle de organismos multilaterais. "A ideia em discussão é abortar a construção de fábricas de enriquecimento de urânio nos países, sobretudo por causa do programa nuclear iraniano", diz Guilherme Camargo, presidente da Aben (Associação Brasileira de Energia Nuclear). [3]
A esse respeito, Rubens Barbosa, ex-embaixador e atual presidente do Conselho de Comércio Exterior da FIESP, opina que “cuidados adicionais deveriam ser tomados” e acredita que a entrada do País no rentável mercado de urânio enriquecido e os avanços no programa nuclear brasileiro poderão, na Conferência de Revisão do TNP em abril de 2010, colocar o Brasil no centro das discussões. Mesmo contextualizando o “sonho de consumo” do Itamaraty de ocupar um assento permanente no obsoleto Conselho de Segurança da ONU, Barbosa pontua que “É de nosso interesse, para a construção de um país com crescente projeção e responsabilidades externas, avançar, em todas as áreas, com programas que fortaleçam o poder nacional, a competitividade industrial e o domínio do conhecimento e da tecnologia, inclusive de uso dual, que possa levar à fabricação de artefato nuclear. O Brasil não pode abdicar dos meios para desenvolver os instrumentos necessários à garantia de sua segurança e soberania”. Assinamos em baixo. [4]
Notas:
[1]Plano nuclear atrai novos fabricantes, O Estado de São Paulo, 13/10/2009
[2]Produção de urânio na Amazônia pode levar país a exportar o minério, Folha de São Paulo, 19/10/2009
[3]Plano do governo exorta domínio da tecnologia nuclear, Folha de São Paulo, 19/10/2009
[4]O Brasil e a (não) proliferação nuclear, O Estado de São Paulo, 13/10/2009



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