Transgênicos: EUA propõe "diplomacia científica" com Brasil para ajudar a África
3/nov/09 (Alerta em Rede) – Semana passada, a bióloga Nina Fedoroff, assessora especial de ciência da secretária de Estado Hillary Clinton, esteve em São Paulo para tentar ampliar as parcerias na área de ciência e desenvolvimento entre estadunidenses e brasileiros. Em entrevista à “Folha de São Paulo”, Fedoroff revelou que o presidente Barack Obama abraçou o conceito que chama de “diplomacia científica” que, segundo ela, é orientada para fomentar a colaboração internacional entre pesquisadores como forma de encetar uma ação conjunta sobre temas controversos, como aquecimento global, “explosão populacional” e transgênicos. [1]
Com posições bastante questionáveis sobre os dois primeiros temas, é na questão dos transgênicos que Fedoroff abre um campo de discussões e cooperação realmente inovadoras ao propor que o Brasil e os EUA façam uma “parceria diplomática e científica” para ajudar a vencer a resistência dos países africanos aos vegetais geneticamente modificados para que tenham um impacto positivo na segurança alimentar do mundo.
Para Fedoroff, os transgênicos (OGMs) são
"tremendamente importante porque pode nos permitir usar a biologia molecular não apenas nos nossos dois países ricos, mas para nos unir e ajudar países onde a produtividade agrícola não teve tanto apoio da ciência como o que existe no Brasil e nos EUA. Nesse ponto, existem diferenças enormes, particularmente na África. Porque a rejeição da Europa aos OGMs, que não é cientificamente fundamentada, mas é muito forte, tem criado um efeito extremamente negativo na possibilidade de usar essas técnicas na África, onde elas são muito necessárias. E uma faceta maravilhosa dessas tecnologias é que elas independem de escala: ajudam o pequeno produtor tanto quanto o grande. Um dos objetivos da minha vinda é favorecer essa colaboração, e tivemos discussões muito ricas sobre como os setores público e privado podem colaborar nisso, unindo-se para aumentar a produtividade em países que ainda não chegaram lá".
Como se recorda, as mesmas ONGs anticiência que fizeram campanhas contra os transgênicos no Brasil, capitaneadas pelo Greenpeace, foram as mesmas que “convenceram” governos de países africanos a rejeitar ajudas humanitárias em 2002, quando, por exemplo, condições climáticas adversas se abateram sobre a Zâmbia e outros países do sudeste africano criando um contingente de 13 milhões de pessoas famintas. [2]
Parte da ajuda humanitária veio do governo americano, que doou 27 mil toneladas de milho, só que ele era transgênico. O governo de Zâmbia preferiu ver pessoas morrerem de fome a arriscar-se que o milho doado fosse eventualmente plantado e “contaminasse” a lavoura do país, que depende de exportações agrícolas para países europeus que recusavam qualquer resquício de grãos geneticamente modificados.
Andrew Natsios, então diretor da USAID, atacou as ONGs ambientalistas: “Estes grupos podem fazer este tipo de jogo com os europeus, que estão de barriga cheia, mas é revoltante e vil vê-los fazer isto aqui, quando vidas de africanos estão em jogo”. Segundo notícias então divulgadas pela imprensa, o Greenpeace International, a Friends of the Earth (Amigos da Terra) e outras ONGs estiveram fazendo lobby ativamente junto ao governo da Zâmbia e outros países afetados pela fome para rejeitarem alimentos transgênicos. Como então resumiu um observador em Johhanesburgo, “A mensagem de morte do Greenpeace foi clara: ‘Vocês de pele mais escura podem ficar famintos, envenenar seu solo e sua biodiversidade até que nós, sábios Bwanas brancos da Europa, decidamos que grãos transgênicos são aceitáveis’”.
Como o Greenpeace e caterva foram exemplarmente derrotados por aqui, tem razão a bióloga Fedoroff em propor que a comunidade científica brasileira transfira sua “tecnologia” com ONGs a países africanos para que eles possam também se beneficiar desse tremendo da ciência na produção de alimentos.
Notas:
[1]Brasil pode convencer África a aceitar os transgênicos, Folha de São Paulo, 02/10/2009
[2]O milho transgênico e o fúnebre prontuário do Greenpeace, Alerta Científico e Ambiental, 19/04/2007



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